segunda-feira, 10 de junho de 2019

Purificação



dema


Purificação
dema


Quantas vezes quis despir-me do passado
pra peitar a vida sem seguir lições,
ver a realidade qual um pronto dado,
jogar na lixeira velhas ilusões,
dispor-me ao futuro nude dos meus medos,
viver relações sem o menor segredo.

Quantas vezes quis ser tão somente eu,
limpo dos vestígios que o tempo larga
ou que a própria vida fez, depois nos deu;
poder escolher, posto que escolha amarga,
mas não afetada por falsos desejos
e checar se a sorte me sorri com beijos.

Desejara ter nas veias sangue puro,
nada de ancestral, nem de colateral,
inda que sonhado, nada de futuro.
Queria saber quem sou eu na real,
se me encontro estreme, se estou maculado,
se o bem trago em mim ou se sou malvado.

Quem me dera, livre, a minha alma fosse,
sem qualquer liame com teor de posse,
sem menor lembrança de um amor gostoso,
de um amor presente ou muito desejado,
quiçá um pedacinho do Deus poderoso,
pra vagar no espaço longe do pecado;

ser eu qual a nuvem que leve passeia,
ou como as ondas que se quebram n’areia,
talvez água limpa descendo, em cascata,
a colina verde que ninguém desmata;
vestir-me de azul conforme o céu da tarde,
trocar meus janeiros pela mocidade.

Quem sabe, portanto, a pureza retorne,
a maldade morra tal se por encanto
e esse mundo torpe, agora mui disforme,
vire o paraíso que imagino e canto.
Ainda que em mim mesmo haja só vontade,
já vislumbro a imagem da felicidade.



Desfecho



dema

Chove torrencialmente, chove.
Pátio alagado.
No peito, coração aos saltos.
Aproxima-se o sim.
Medo, pavor, segredo.

A campainha soa:
uma donzela molhada, uma rosa
e um desejo: Seja feliz!
(Mentiroso e desgraçado desejo,
encharcado de chuva e de lágrimas...)

Lá longe, mais alguém chora.
Engasga-se com os próprios soluços.
Súbito, estupidamente, quebra a taça.
Pelos cacos, o amor escapa.
(Por que te vais, oh vida minha?)

Buquê nas mãos, véu e grinalda,
a noiva espera que a chuva passe
e o carro a leve para a matriz.
“Velvet, costuras de amor”.

Amante, amada, prometida.
Que desgraças, meu Deus!
Lágrimas e solidária solidão.






segunda-feira, 27 de maio de 2019

Atração e repulsa



dema

Elétrons em giro ao núcleo,
satélites aos planetas,
planetas aos sóis,
sóis em orbitais galácticos.
Gulosos de matéria e luz,
buracos negros engolem galáxias
para, ao depois, hibernarem no escuro Universo.
Talvez regurgitem ou reproduzam novos big bangs.
Atração e repulsa, as donas do pedaço físico e metafísico.
Uma aproxima, junta, une,
donde empatia, amizade, amor;
outra empurra, espalha, expande;
deflagrada ou detonada, mata.
Se a ninguém mais atrais,
se nada ou ninguém te atrai,
se és pura inércia,
clama o fim, que tua hora é certa.
Cava a cova,
deita e espera!


terça-feira, 21 de maio de 2019

Anverso e reverso



dema

Em essência,
um contrassenso:
(Que fazer? _ Paciência!
Sinto e penso.)

Sou sólido e líquido,
matéria e espírito;
carne e osso,
canela e pescoço;
um tubo em dobras
de entrada e sobras.

Amo e odeio,
sou belo e feio;
inteiro e metade,
modéstia, vaidade;
sou espúrio e puro
no claro e no escuro.

Nasci, vou morrer,
sou efemeridade,
porém, quero viver
para a eternidade;
não sei donde vim
nem para onde vou,
mas sei que do fim
só Deus escapou.

Sou coragem e medo,
transparência, segredo,
anjo e diabo,
um bicho sem rabo;
loquaz e mudo,
todo ouvidos e surdo.

Sou frágil e forte,
com azar e sorte;
feliz e infeliz,
sou réu e juiz.

Escravo e dono,
tenho insônia e sono;
sou querer e instinto,
sou verdade, mas minto.
Sou tudo e sou pouco,
prudente e louco.

Eis que assim sendo,
não sei até quando,
chorando ou blefando,
sigo vivendo.




sexta-feira, 17 de maio de 2019

Digital divina


dema

Leva-me a outros rincões, a névoa fria,
onde mal chega o sol, senão boreal.
Um raio dourado? Quão bom seria!
Rasgar a bruma e eu me ver real,
erradicar-me do moroso tempo
que me prende, hiberna e consome.

Longe se vai o moço de ver
a silhueta esbelta e se apaixonar.
Grita seu nome, mas a cerração
consome o grito, tudo é tão perto,
mais que finito.

Entorpecida, peleja, a mente,
buscar alegria, inda que esmaecida,
virtuais memórias e novos rumos.
Avizinha-se, todavia, a noite de cintilares opacos,
que o espaço denso sequer descortina.
Donde o farol a clarear visão
do Universo vivo que nos conduz?

No tempo, esperto e lento,
linha sutil ao longo se estira,
traço digital que ampara a vida
do começo ao fim, divino.
Exsurge, então, ufano e grande
e sobrepõe-se à névoa etérea
das galáxias em rodopios,
prova viva de existência e comando,
Deus.
Curvo-me: amém.


http://www.demasilva.com.br/PINEDITOS/DIGITAL_DIVINA.html

terça-feira, 9 de abril de 2019

Diário


dema

Linda, mais linda não há,
maravilha,
carnaval, folia.
Oh, lá vem chuva
- adeus ciclovia!
Carro afogado nos rios das ruas,
barreira caída,
casas levadas, sonhos perdidos.
Há de tudo no morro
vizinho da city:
funk, churrasco na laje;
bala de festa, festim,
de fuzil, de metralha
(sibila perdida
à caça de vida);
gente de muita e de pouca coragem,
gente grã-fina e gentalha.
De noite ou de dia, o bandido desce,
invade, arrasta,
sequestra e mata.
Lá onde o Estado não chega,
milícia comanda, gangue discorda,
o caveira invade, a polícia massacra
(quem tem perna se esconde na mata).
Num monte mais alto,
olhando a cidade
o Cristo (diz-se que) redime,
sobre a névoa corrompida,
alucinógena até,
o pobre, o rico, o santo, o bandido,
a morte e o crime.
Comédia e tragédia,
diário de um Rio.



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quinta-feira, 28 de março de 2019

Brilhante sonhado



dema


Já cansado, cético,
toma, cotidianamente, da gasta pena
e lavra.
Entre fôrmas de seixos brilhantes,
perde-se gênio,
vê-se medíocre.
Sonha coroar, com a gema pura,
o topo da bateia de versos,
o poema-poesia,
a obra-mestra.
Não importa o ouro,
mas o brilho do tesouro.
Quem dera viesse a musa- encanto
e, entre diversos,
apontasse o seixo sonhado,
a poesia cristalizada,
de todos, agrado.
Cai a tarde, vem a noite,
segue o açoite.
Que cruel o seu fado!


segunda-feira, 11 de março de 2019

Cosmonauta


dema


Plenamente livre,
quando só, me sinto.
O Universo à vista
me inebria: viajo.
Nem Deus, nem parte,
sou distinto.
Não minto.
Semideus me vejo:
penso, abarco o existente,
inda que nele estando,
e vou além.
Sou presente-futuro,
lembranças, amores, dissabores;
eterno num instante,
noutro, poente.
Rio das barbáries,
risco o inalcançável.
Sou quase supremo
e nada:
microcosmo a cintilar imperceptível
no emaranhado das  galáxias.
Louvo ao Criador.

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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Travessia


dema

E ordena Netuno: _ Nave ao mar!
Velas ao vento! Tempestades! Marés!

Um veleiro nas águas da vida a vagar.
Em noites abertas, Polaris é guia.
Se há tufão, porém, timoneiro à toa,
ondas gigantes,
sextante Inútil,
ração diminuta.
Desgoverna-se a nau, quase a pique.
Navega-se ao léu.

Quem sabe um dia aportemos,
talvez soçobremos:
na popa, o tempo,
na proa, um destino incerto.

Conosco, o mar,
o cheiro de enxofre,
por vezes, o luar.

Navegar, navegar...
rumo ao desconhecido.
Não importa o quando,
impende chegar.
Sem pressa, devagar.

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terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Banal


dema


O poema superfície
a cantar meu submundo
nunca imerge mais profundo,
é o que tanta gente disse.

A pobreza lhe é inerente,
brilha qual bijuteria,
sem glamour, sem pedraria,
mais parece um indigente.

Que de ouro, que de festa,
de paixão, de boemia;
como pode, sem poesia,
ser cantado na seresta?

Que de estrelas, que de flores,
que de luzes, de orgia,
que de dança, de folia?
Só tristeza, só temores.

Donde um poema sem graça,
versado sem maestria,
causar prazer e alegria,
vir a recital em praça?

Há poetas e artistas,
rouxinóis e trovadores;
também quem suscita horrores,
tais os bruxos alquimistas.

Quem me dera o estro farto,
ser a voz que causa encanto,
ser a lágrima do pranto
nos olhos após o parto!

Não me basta essa vontade,
trabalho com teimosia
num poema que, eu queria,
ficasse pra eternidade.

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