segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Ah, o tempo!


dema

Por que ocupar o tempo, se não quero que passe,
e o medo de perde-lo, sendo meu sustento,
ente bizarro que agarro, oh que contratempo(!),
mas no seu transcurso tira-me o disfarce.

Luz que brota do sol não mais lhe retorna,
tal o pingo da chuva caído no chão,
uva esmagada, vinho que me conforma,
se a tristeza bate no meu coração.

Desprendida do galho repentinamente,
voa, a folha, ao vento sem dizer adeus;
néscio, vai-se, o rato, à boca da serpente,
que a coruja mata pra nutrir os seus.

Logo se desfaz a nuvem passageira,
amor adolescente de gosto hormonal,
erro inocente, aurora assaz ligeira
mudança permanente, tem-se o natural.

Tempo é pois segundo, é minuto, é hora,
é hoje, amanhã, por decerto outrora;
tempo é o que tenho, já não tanto assim,
quanto mais o gasto, mais eu gasto a mim.

Perde-se um amor, ganha-se ilusão,
com ela a esperança de nova paixão;
perde-se o presente, ganha-se o passado,
com ele a saudade a viver lado a lado.



quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Agradecimento


dema


É pelo brilho do sol,
também pelo azul do mar,
pelo esplêndido arrebol,
pelas noites de luar;

pela pétala da flor,
pelo orvalho matutino,
pela mãe de puro amor
que nos deu Jesus menino;

pelos rios, pelas fontes,
pelos vales, pradarias,
pelos belos horizontes,
pelo pão de cada dia

e por toda inteligência
que nos torna diferentes,
denotando a excelência
entre os reinos existentes;

pela neve, pelo vento,
pela chuva e o trovão,
até pelo sofrimento
que nos chega sem razão;

pelos sonhos, por desejos,
dentre os quais o de amar,
pelo afago, abraço e beijos,
que não nos podem faltar.

Em resumo, afinal,
quero a Deus agradecer,
pela coisa principal,
que é a graça de viver.


http://www.demasilva.com.br/PINEDITOS/AGRADECIMENTO.html

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

O amor



dema

Quem ama pode descobrir
que o amor enlaça corações
e produz ricas emoções;

Prescinde de razão.
Vindo da alma, é puro sentimento,
_ oh, que contrassenso!

É inconsequente, loucura, danação.
Presente, causa espécie,
dá prazer, contentamento.

Não se confunde com ilusão,
que é sempre passageira
e se repõe com solidão.

Não mira defeito,
recusa-se a contar rugas ou riqueza,
por si só, vê-se perfeito.

Não lhe atinge o desalento,
ou raios, trovoadas, relâmpagos, vento;
tem luz própria como estrelas,

vai além do pensamento.

Elo a extrapolar distância e tempo:
quando ausente, tem-se o inferno,
se existente, faz-se eterno.


segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Mais, sempre mais



dema


Alma faminta, insatisfeita,
quer mais amor,
uma lembrança, quem sabe,
preencha lhe a ausência,
abrande a saudade,
derrame serenidade.

Alma humana, insaciável,
aspira conforto,
riqueza,
um gosto a mais,
tudo que apraz.

Semieterna, inquieta,
apega-se à  vida,
renega a morte,
sempre insurrecta,
lança-se à sorte.

Cada humano um semideus,
mundano e divino,
nobre e plebeu,
abjura o adeus.


quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Novo olhar



dema

Meia vida e meia ao sabor da mediocridade,
no cismar cotidiano com a efemeridade:
_ renúncias recorrentes ao entusiasmo fácil,
tão comum nos pequenos sucessos.

A contraponto de um panteísmo absurdo,
causam descrédito no longevo credo de escol:
 - o enredo do mistério da vida no universo,
 - a presença divina no potencial da matéria,
 - a perfeição da natureza micro/macrocósmica,
 - a insignificância humana frente ao poder pleno/eterno,
 - a descrença nos mitos e outras criações da mente.

Num piscar de olhos, o insight:
 - a vida a sorrir do próprio destino,
 - o gargalhar pela existência,
 - o dar de ombros ao até quando.

_ Badalem os sinos!
_ Rufem os tambores!
_ Soltem rojões!
_ Um brinde ao novo olhar!


quinta-feira, 9 de agosto de 2018

A tarde



dema

A tarde tem a cor da náusea
com pitadas verdes de alecrim.
Exala um sabor de riso amarelo
pós vômito de cólica renal.
O pensamento circula por labirintos cavernosos,
em busca da expressão de liberdade e conforto.
O sol segue escondido atrás de nuvens tenebrosas
e o amor verbaliza-se no canto triste dos pássaros.
É, talvez, a ressaca presente da escolha funesta
a prensar a alma com arrependimento,
tal se a vida tivesse sido abruptamente interrompida
na expulsão, por mãos próprias,
do almejado e próximo futuro.
Que venha a noite e,
quem sabe, 
um novo amanhã!


terça-feira, 31 de julho de 2018

É fato



dema

De repente, da alta palmeira,
escorregou e caiu o pombo filhote.
Já grande e pesado,
mamãe nem pensou levantar o coitado
pelo cangote.
Ficou sem eira nem beira.
Tive um dó danado do bichinho.
Dei-lhe água, comida, fiz-lhe um ninho.
Inesperadamente, numa noite de breu,
acorreu um gato preto e o comeu.
_ Filho da puta!
Deixou-me apenas as penas
por herança e lembrança.
Se o pego, também o mato
e o capo,
ou atropelo.
Só não vou comê-lo.