segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Passar



dema

Dá-nos boas vindas, a brisa da tarde,
soprada fresca do mar azul-turquesa,
alento de vida com gosto de alarde,
a insculpir, nos olhos sedentos de beleza,
imagens vivas da natureza.
O tempo urge, célere corre e morde
o calcanhar do ontem.
Quando menos se espera, agora é depois.
A manhã desfaz a noite com a luz do sol
que, mal chegado, zarpa ruma ao poente.
Nem se contam as horas, vão-se os dias,
passam-se os meses e, logo, os anos.
Vai-se a infância, a mocidade, voam os sonhos.
O passar engole desejos e esperanças
de rostos encovados que a labuta cansa.
Avança em reta, sem qualquer recuo,
quando em vez abrandado por uma lembrança.
O tempo passa e a vida se esvai.

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Amizade



dema

Há certas coisas que o tempo não corrói.
Se verdadeiras, e hão de ser, se eternizam.
Não importa o lapso cronológico ou o espaço,
firmes e fortes permanecem.

_ Inda me lembro que quebraste meu brinquedo.
Chorei, bati. Com certeza, belisquei-te.
E choraste de doer meu coração.
Te abracei, te perdoei, pedi perdão.
Depois, folguedo.

Quão gostoso era chorar as namoradas,
na cachaça, afogar toda paixão.
Clamar, sorrir, pensar futuro,
fazer juntos e ajudar o que em apuro.
Longas noites de estudo.
_ Que dureza!
Finalmente, a colação e o mercado.
_ Quem puder informe, empurre!

Corolário natural: ser padrinhos e compadres.
O encontro, a prosa, a carteira, o tempo.
Divide-se o que se quer.
Longe o ‘salve-se quem puder’.
E há conselho, “dura” até, mas sem ofensa.
O que não vale é se perder.
Sentimento nobre, de rico, de pobre.
Harmonia, pertinência, bom fluir.

Facada funda, do lado esquerdo, a partida:
uma dor doída,
um cheiro de desconsolo,
um vazio de perda,
um olor fúnebre na poesia da vida.

http://www.demasilva.com/PINEDITOS/AMIZADE.html


terça-feira, 27 de agosto de 2019

Ciclicidade



dema

Voltarão as chuvas e o verde.
Não se sucumbe a esperança à fé inconstante.
Vão-se os dias, os anos, mas, enquanto houver sol,
seguir-se-ão outros.
O ódio nasce, cresce, mata e passa. Ressurge, depois passa.
O amor enraíza-se.
O humano, indubitável. O divino, talvez.
A flor convida ao encanto,
o colibri aproxima-se e a beija.
O vivo consome-se ao fogo, renasce pela água.
Do céu, estrelas testemunham transas noturnas
de carinho e de maldades.
Sente-se no ar um aroma de vida e um olor cinza de morte.
Envolvem-se, todavia, não se confundem.
Cada ser no seu quadrado cíclico.


Aglomerado



dema

Acordei de madrugada
um tanto quanto encucado
com o peso cotidiano
de viver no aglomerado.

Sei que há muita coisa boa,
vivo na grande cidade,
mas, nos pratos da balança,
pende o da dificuldade.

Fila pro caixa do banco,
também do supermercado;
fila pra pegar o ônibus
e o metrô que vem lotado,

porém a maior das bichas
é a dos desempregados;
quando na hora do rush,
trânsito é engarrafado.

Ai, meu deus, que correria
pro trabalho e para escola,
ao chegar o fim do dia,
o cansaço me assola.

Já pensei mudar pro campo,
desfrutar da natureza,
ver brilhar o pirilampo
e o luar, oh que beleza!

Por outro lado, entretanto,
o tumulto da cidade
traz até um certo encanto,
não direi felicidade.

Sei apenas que me laça,
que me prende e que me abraça,
não mui raro me extasia
e amaina a minh’agonia.



terça-feira, 13 de agosto de 2019

Insipidez



dema


Teria sido a seca no Norte
que matou a minha inspiração
ou as águas sobejas no Sul
que afogaram o meu coração?

Onde está o silêncio da noite,
onde os segredos da madrugada,
o gorjeio festivo das aves
que enchia de encanto a alvorada?

Não vejo, há muito, a lua no céu
nem luzir de estrelas no sem-fim;
o sol, sempre escondido nas nuvens,
como se, na mata, um curumim.

Não se sente o perfume das rosas
ou o cheiro doce do jasmim;
nem se vê o beija-flor adejante
que trazia esperanças a mim.

Não mais me chegam ternas lembranças
dos amores que tive na vida;
tenho minh’alma empalidecida
por tanto sofrer desesperança.

Eis porque, ao nascer qualquer verso,
vem com insipidez, sem beleza.
Por Deus, quem dera fosse o reverso
para aniquilar essa tristeza!


sábado, 6 de julho de 2019

Poço de desejos


dema

No quintal da minha casa
tem um poço de desejos.
Meu coração cria asas,
não me canso em visitá-lo,
encho um pote até o gargalo
com pedidos de teus beijos.

Doces, doces eles são:
inebriam minha alma,
sufocam profundo trauma,
quebram a monotonia
e transbordam de alegria
o meu pobre coração.

Imaginem se um dia
eu fizer divulgação
desse poço benfazejo,
com certeza eu ficaria
famoso neste rincão,
o mercador de desejos.

Ah, isso fosse verdade,
nem pensaria na idade
dos meus cabelos grisalhos.
Tomando alhos por bugalhos,
voltaria à juventude,
renovando as atitudes.

http://www.demasilva.com/PINEDITOS/POCO_DE_DESEJOS.html

segunda-feira, 10 de junho de 2019

Purificação



dema


Purificação
dema


Quantas vezes quis despir-me do passado
pra peitar a vida sem seguir lições,
ver a realidade qual um pronto dado,
jogar na lixeira velhas ilusões,
dispor-me ao futuro nude dos meus medos,
viver relações sem o menor segredo.

Quantas vezes quis ser tão somente eu,
limpo dos vestígios que o tempo larga
ou que a própria vida fez, depois nos deu;
poder escolher, posto que escolha amarga,
mas não afetada por falsos desejos
e checar se a sorte me sorri com beijos.

Desejara ter nas veias sangue puro,
nada de ancestral, nem de colateral,
inda que sonhado, nada de futuro.
Queria saber quem sou eu na real,
se me encontro estreme, se estou maculado,
se o bem trago em mim ou se sou malvado.

Quem me dera, livre, a minha alma fosse,
sem qualquer liame com teor de posse,
sem menor lembrança de um amor gostoso,
de um amor presente ou muito desejado,
quiçá um pedacinho do Deus poderoso,
pra vagar no espaço longe do pecado;

ser eu qual a nuvem que leve passeia,
ou como as ondas que se quebram n’areia,
talvez água limpa descendo, em cascata,
a colina verde que ninguém desmata;
vestir-me de azul conforme o céu da tarde,
trocar meus janeiros pela mocidade.

Quem sabe, portanto, a pureza retorne,
a maldade morra tal se por encanto
e esse mundo torpe, agora mui disforme,
vire o paraíso que imagino e canto.
Ainda que em mim mesmo haja só vontade,
já vislumbro a imagem da felicidade.