segunda-feira, 11 de março de 2019

Cosmonauta


dema


Plenamente livre,
quando só, me sinto.
O Universo à vista
me inebria: viajo.
Nem Deus, nem parte,
sou distinto.
Não minto.
Semideus me vejo:
penso, abarco o existente,
inda que nele estando,
e vou além.
Sou presente-futuro,
lembranças, amores, dissabores;
eterno num instante,
noutro, poente.
Rio das barbáries,
risco o inalcançável.
Sou quase supremo
e nada:
microcosmo a cintilar imperceptível
no emaranhado das  galáxias.
Louvo ao Criador.

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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Travessia


dema

E ordena Netuno: _ Nave ao mar!
Velas ao vento! Tempestades! Marés!

Um veleiro nas águas da vida a vagar.
Em noites abertas, Polaris é guia.
Se há tufão, porém, timoneiro à toa,
ondas gigantes,
sextante Inútil,
ração diminuta.
Desgoverna-se a nau, quase a pique.
Navega-se ao léu.

Quem sabe um dia aportemos,
talvez soçobremos:
na popa, o tempo,
na proa, um destino incerto.

Conosco, o mar,
o cheiro de enxofre,
por vezes, o luar.

Navegar, navegar...
rumo ao desconhecido.
Não importa o quando,
impende chegar.
Sem pressa, devagar.

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terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Banal


dema


O poema superfície
a cantar meu submundo
nunca imerge mais profundo,
é o que tanta gente disse.

A pobreza lhe é inerente,
brilha qual bijuteria,
sem glamour, sem pedraria,
mais parece um indigente.

Que de ouro, que de festa,
de paixão, de boemia;
como pode, sem poesia,
ser cantado na seresta?

Que de estrelas, que de flores,
que de luzes, de orgia,
que de dança, de folia?
Só tristeza, só temores.

Donde um poema sem graça,
versado sem maestria,
causar prazer e alegria,
vir a recital em praça?

Há poetas e artistas,
rouxinóis e trovadores;
também quem suscita horrores,
tais os bruxos alquimistas.

Quem me dera o estro farto,
ser a voz que causa encanto,
ser a lágrima do pranto
nos olhos após o parto!

Não me basta essa vontade,
trabalho com teimosia
num poema que, eu queria,
ficasse pra eternidade.

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quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Lamá Sabactani



dema

Sem pressa, caminho pela vida,
para alongar a trilha curta do fado que presumo.

Choro por aqueles que a tiveram interrompida,
_ os corpos sepultados por lama rejeitada, _
viram sequestrada a própria vida.
Não emergem da tumba coletiva
os sonhos soçobrados ao peso do concreto
– Titãs, no Tártaro aprisionados,
sem direito de ingresso no Olimpo.
Tal a criança impedida de alçar a puberdade,
o filho de ser pai, a mãe de ser avó.
Ouço ressoar das profundezas o lamento crucial:
_ Eloi, Eloi, lamá sabactani!
E saber que, além, pode haver eternidade.

De volta ao meu umbigo, me conformo.
Vou seguindo, alforje mal distribuído,
leves por demais os sonhos futuros,
a contrapeso de boas lembranças e desatinos.
Chegar hoje, amanhã, tanto faz,
ao menos, até agora,
não surrupiaram meu destino.


segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Borrão de trincha



dema


Tão grande a ânsia por coisa bela,
que a brilhante ideia se atravanca,
pichação disforme de aquarela,
borrão de trincha na folha branca.

Esvai-se a imagem do pensamento,
indômita pressa a ofusca,
impõe, à alma, cruel tormento
e, à mente afoita, maçante busca.

Procura, alhures, por qualquer musa
que de bom grado lhe avive o estro,
se acaso encontra, ouve só recusa
(Foram mandantes de algum sequestro?).

Quer de manhã, de tarde ou de noite,
a todo o tempo e em todo lugar,
castiga o verso a poder de açoite,
nasce um poema sem cintilar.

Que das estrelas, do azul do mar,
das rosas, cravos, e dos jasmins,
dos beijos doces sob o luar,
fazendo inveja nos Serafins?

Maldita hora, em que o nada aflora,
seta encravada no coração,
peço-lhe, Euterpe, que, sem demora,
me esguiche um jato de inspiração.


http://www.demasilva.com.br/PINEDITOS/BORRAO_DE_TRINCHA.html

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Extemporâneo


dema


Quem o mandou aguardar tanto,
tanto que a vida passou.
O velho amor perdeu o encanto,
na carência, soçobrou.

Não há mais tempo de partida,
que a hora agora é chegar.
Bem longe jaz a despedida,
não há o que recomeçar.

Nem mesmo as imagens de outrora,
resquícios de pensamento,
encontram lugar na memória,
feneceram ao relento.

Um adeus por insensatez
fez reverter o destino
e a felicidade, talvez,
transformou-se em desatino.

Foram-se dias, meses, anos
e a alma, assim combalida,
refez-se, enfim, dos desenganos,
ressuscitou para a vida.

Agora, mui dona de si,
com frutos desta conquista,
descarta o passado e sorri:
sem chance ao oportunista.


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quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Papai Noel


dema

Mais uma vez ele chega,
como tantas outras virá,
enquanto mundo for mundo.
Desta feita, a pé, possivelmente descalço
ou com sandálias rotas.
Há muito sol e calor, chuvas torrenciais,
o dólar caro,
o trenó sem renas.
Vem buscar presentes, não distribuir.
Quer dá-los aos meninos abusados
pelos homens que se dizem de Deus.
Traz um cesto grande a ser abarrotado,
que muitos são os destinatários.
Por certo, contribuiremos.
Vai pegar a lista com o Papa
e nos sites de pedofilia.
Com cada presente uma bênção.
Se sobrar algum, será dos iemenitas.
Que Noel apareça
com espírito de jesus!
Que venha depressa!
Os meninos-presas carecem de paz
e de luz.


http://www.demasilva.com.br/PINEDITOS/papainoel.html