sexta-feira, 26 de outubro de 2018

O amor



dema

Quem ama pode descobrir
que o amor enlaça corações
e produz ricas emoções;

Prescinde de razão.
Vindo da alma, é puro sentimento,
_ oh, que contrassenso!

É inconsequente, loucura, danação.
Presente, causa espécie,
dá prazer, contentamento.

Não se confunde com ilusão,
que é sempre passageira
e se repõe com solidão.

Não mira defeito,
recusa-se a contar rugas ou riqueza,
por si só, vê-se perfeito.

Não lhe atinge o desalento,
ou raios, trovoadas, relâmpagos, vento;
tem luz própria como estrelas,

vai além do pensamento.

Elo a extrapolar distância e tempo:
quando ausente, tem-se o inferno,
se existente, faz-se eterno.


segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Mais, sempre mais



dema


Alma faminta, insatisfeita,
quer mais amor,
uma lembrança, quem sabe,
preencha lhe a ausência,
abrande a saudade,
derrame serenidade.

Alma humana, insaciável,
aspira conforto,
riqueza,
um gosto a mais,
tudo que apraz.

Semieterna, inquieta,
apega-se à  vida,
renega a morte,
sempre insurrecta,
lança-se à sorte.

Cada humano um semideus,
mundano e divino,
nobre e plebeu,
abjura o adeus.


quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Novo olhar



dema

Meia vida e meia ao sabor da mediocridade,
no cismar cotidiano com a efemeridade:
_ renúncias recorrentes ao entusiasmo fácil,
tão comum nos pequenos sucessos.

A contraponto de um panteísmo absurdo,
causam descrédito no longevo credo de escol:
 - o enredo do mistério da vida no universo,
 - a presença divina no potencial da matéria,
 - a perfeição da natureza micro/macrocósmica,
 - a insignificância humana frente ao poder pleno/eterno,
 - a descrença nos mitos e outras criações da mente.

Num piscar de olhos, o insight:
 - a vida a sorrir do próprio destino,
 - o gargalhar pela existência,
 - o dar de ombros ao até quando.

_ Badalem os sinos!
_ Rufem os tambores!
_ Soltem rojões!
_ Um brinde ao novo olhar!


quinta-feira, 9 de agosto de 2018

A tarde



dema

A tarde tem a cor da náusea
com pitadas verdes de alecrim.
Exala um sabor de riso amarelo
pós vômito de cólica renal.
O pensamento circula por labirintos cavernosos,
em busca da expressão de liberdade e conforto.
O sol segue escondido atrás de nuvens tenebrosas
e o amor verbaliza-se no canto triste dos pássaros.
É, talvez, a ressaca presente da escolha funesta
a prensar a alma com arrependimento,
tal se a vida tivesse sido abruptamente interrompida
na expulsão, por mãos próprias,
do almejado e próximo futuro.
Que venha a noite e,
quem sabe, 
um novo amanhã!


terça-feira, 31 de julho de 2018

É fato



dema

De repente, da alta palmeira,
escorregou e caiu o pombo filhote.
Já grande e pesado,
mamãe nem pensou levantar o coitado
pelo cangote.
Ficou sem eira nem beira.
Tive um dó danado do bichinho.
Dei-lhe água, comida, fiz-lhe um ninho.
Inesperadamente, numa noite de breu,
acorreu um gato preto e o comeu.
_ Filho da puta!
Deixou-me apenas as penas
por herança e lembrança.
Se o pego, também o mato
e o capo,
ou atropelo.
Só não vou comê-lo.


terça-feira, 24 de julho de 2018

Direito e respeito



dema

Quando Deus criou o mundo,
viu que era necessário
um planeta bem fecundo,
pra tornar o ser humano
seu perene donatário,
portanto, seu soberano.

Deus fez gente cor de leite,
cor da noite e amarelada,
misturou-as por deleite,
gerando a miscigenada.
Quer aceite, quer rejeite,
toda gente é igualada.

O criador, todavia,
deu ao homem liberdade
pra fazer o que queria,
mas O amasse de verdade.
O livre arbítrio, porém,
fê-lo afastar-se do bem.

Arvorou-se em próprio deus,
confundiu ser com poder
e o que Deus a todos deu
foi a poucos pertencer.
Se há massacre, exploração,
problema da multidão!

Pouco importa a tez da pele,
preferência sexual,
se da elite, se da plebe,
com fé ou sem, não faz mal,
cada qual tem seu direito,
e o que falta é respeito.

Nasci pobre por herança,
não me dei por derrotado,
herdei também esperança
de construir meu quadrado.
E o que a todos eu desejo
é um quadrado com sobejo.

A dizer que Deus errou,
terá sido a liberdade
que ao ser humano integrou
como a maior qualidade.
Ser livre, bater no peito,
exige amor e respeito.



sábado, 14 de julho de 2018

Quadrilátero


dema


Quatro ângulos em 90°
se olham permanentemente.
Cada um com horizonte no lado oposto.
Os contrários não disputam entre si,
ao contrário, compartilham invisível hipotenusa.
Quiçá se atraem, pois se relacionam.
Amar? Creio que não.
Amor é relativo, mais e menos,
A hipotenusa faz-se exata.
Os cantos não se dividem,
Não se excluem.
Angulam a circunferência.
Amor: forma e desforma.
Quadrilátero: simplesmente forma.


DEMASILVA

sexta-feira, 13 de julho de 2018

Indolência poética




dema

A tarde dorme.
Sujeito suspeito, hiberno.
Meu cão também.
Se de repente chega a noite,
acordamos para dormir novamente.

Assim, a vida passa.
Somos velhos peregrinos pelo mundo.
Até quando?
Sem problema,
sem fome.
Somos ninguém,
nem temos nome.

O ar parece tremer sobre nós
e à nossa frente.
É morno ou quente, depende.
_ Não insista, não me acorde!
Ouço Bach em moucos acordes.

No oeste, queimam o planeta.
_ Saltita logo, Saci perneta!
Lá em cima, desmatam
beira e miolo da mata.

A preguiça dorme no tronco.
Sequer espreguiça.

Há tanto fumo,
presumo inferno
não muito curto,
talvez eterno.

A chuva vem, devassa as cinzas.
Faz poeira, meleca.
E cá, sono de soneca em soneca.
Deus salve o mundo
para Maria e o Raimundo!

Zás...surrupiaram meu ananás.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Vulcão ensandecido



dema


Sou vulcão ensandecido,
ávido por derramar lavas incandescentes
sobre a cidade.

Lá, onde a ganância atropela os incautos,
o tráfico destrói as famílias,
o poder surrupia do povo.

Mas lá também onde se ama
e se faz gente,
se solidariza, se canta, se faz festa.

Eu, vulcão ensandecido indeciso:
como enterrar a cidade má e boa?
Sou pior do que os maus?
Melhor do que os bons?

Não sou demônio e nem Deus.
Não estou fora, mas dentro.
Sucumbo, paulatinamente,
em meu tormento.

Sou vulcão ensandecido
e me derreto
por fora e por dentro.




Prece ao Criador



dema


— Senhor, peço que:

·         Te manifestes mais,
·         expurgues a idiotice da mente humana,
·         erradiques o mal do coração dos filhos de Eva,
sem que optem pelo bem por coação.

·         Ponhas fim à mendácia histórica das religiões;
·         Te apresentes hospedeiro de cada alma.

·         Permitas ao racional contemplar a magnífica obra criadora
e, nela, vislumbrar a expressão indubitável
da Tua plena onipotência e bondade.

·         Posto sua mediocridade, semi-eterno ou não,
que o ser humano, a Ti, renda graças pela dádiva de àquela pertencer.

·         Senhor, que incutas, nele, o sentimento fraternal
e afastes a ganância que o destrói,
outrossim, alivies seus temores ante a própria efemeridade.

— Amém.


segunda-feira, 4 de junho de 2018

A noite



dema


Desde pequenino, chamo a noite de irmã.
Ouve meus lamentos, suaviza minh’alma,
torna-me pronto para, em cada manhã,
peitar obstáculos sem perder a calma.

Se me maravilha o cintilar das estrelas,
cismo a perfeição da estrutura do universo.
Lembrar da morte traz o temor de perde-las
e se presta a romper co’a feitura do verso.

É ela quem incita a buscar aventura,
quem conduz para a festa ou, quiçá, ao prazer,
para bem longe expulsa qualquer amargura
e me dá o condão de poder esquecer.

Sabe dos meus segredos e os guarda seguros,
inda conta muitos dos vários que detém;
na verdade, confesso, para ela eu juro
jamais revelar algum deles para alguém.

Em seu coche me vejo a correr por galáxias,
tão veloz que atropelo os lerdos cometas;
vou longe, muito longe desta Via Láctea,
tocar, com os arcanjos, as suas trombetas.

Matuto, penso, repenso, acho interessante
como ela sempre responde os quesitos meus;
quanto mais eu me ponho do mundo distante,
mui mais perto me vejo do encontro dom Deus.

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sexta-feira, 25 de maio de 2018

Tua face


dema


Já me cansa ver a lua aparvalhada
co’a beleza que de tua face emana,
todas as estrelas sentem-se humilhadas
na abóboda celeste que as irmana.
Odeiam-te como a bruxa odeia Aurora.
Não és Rapunzel, não és Branca de Neve,
nem eu um dos sete anões que a ela servem.
Na ciranda, construímos nossa história.
Do meu peito faço tua carruagem,
minha alma a espelhar o teu retrato.
Se nela, então, reconheces tua imagem,
corre logo pra selarmos nosso pacto!

De mãos dadas, passeemos no jardim.
Deixarei com haste lisa tua rosa,
Ficarão os seus espinhos para mim.
Ah, se eu tivesse a lábia de Casanova,
para, ao dormires, cantar-te teus encantos
e tu, quem sabe, ao depois, pela manhã,
secasses cada lágrima de meu pranto.
Onde a coragem do bravo D’Artagnan
pra conquistar um reino e dar-te a coroa,
pois que, antes e agora, nobre Senhora,
tens-me apenas por reles plebeu à toa.
Toma meu coração, faz dele troféu!
Em troca, beija estes meus sedentos lábios,
que, ávidos e melosos, mais que sábios,
poderão, certamente, levar-te ao céu.


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