terça-feira, 4 de agosto de 2009

A EDUCAÇÃO RELIGIOSA NA ESCOLA PÚBLICA

A EDUCAÇÃO RELIGIOSA NA ESCOLA PÚBLICA

* MARSON, Carlos César, CERCONVIS, Tiago de Souza e DIAS, Sâmia Paula Maschetto.
**Orientador: Professor Afonso de Sousa Cavalcanti – Professor na FAFIMAN. E-mail: afonsoc3@hotmail.com

Resumo

Comunicação oral

A presente comunicação quer oferecer aos estudiosos a importância da compreensão da dimensão transcendental do ser humano e para tanto convoca a todos para a real reflexão para os seguintes temas: 1. a finalidade da educação religiosa na escola pública (quem são os profissionais envolvidos, qual é a clientela e quais são os procedimentos didático-pedagógicos propostos pela escola); 2.o espaço na escola e além dela - o fazer ciência - preocupando-se com os quatro pilares da educação (conhecer, saber fazer, compartilhar e ser) e o mergulhar no universo da transcendência; 3. a linguagem na educação religiosa deve ser extraída dos elementos essenciais que constituem os símbolos religiosos e culturais das instituições; 4. os princípios da educação religiosa, fundamentando a fé, o ecumenismo, a personalização, a vida comunitária, a inserção histórica da vida, a busca do Transcendente, a teologia global, a religiosidade popular, a visão global da vida. Acredita-se que a educação religiosa deve ser uma disciplina normal para a escola pública e que deva seguir os parâmetros normais das demais disciplinas, mas com um diferencial: o de trazer os alunos e toda a comunidade escolar para a tomada de consciência das várias questões que envolvem a sociedade hodierna: a solidariedade, a cidadania, os valores e, sobretudo, fazer do ambiente escolar um local livre para o avanço das comunicações e da linguagem. Palavras-chave: Transcendentalidade. Cientificidade. Moralidade social.

*Acadêmicos do 1º ano de História da FAFIMAN.
**MS em Filosofia, Dr. em Educação, Administração e Comunicação, Professor na FAFIMAN.





A EDUCAÇÃO RELIGIOSA NA ESCOLA PÚBLICA

1. Introdução
Para narrar um pouco da história, afirmamos que o Estado do Paraná usou do bom senso para apresentar propostas de implantação da Educação Religiosa neste Estado. Assim, a Associação Interconfessional de Educação de Curitiba (ASSINTEC), constituída oficialmente em Assembléia a 20 de junho de 1973, é entidade formada por representantes de diferentes confissões religiosas (católica, metodista, presbiteriana, luterana, evangélica reformada etc) e aberta às demais que dela queiram participar. Tem por fim, implantar e implementar a Educação Religiosa nas Escolas Públicas do Estado do Paraná. O início de suas atividades, restritas inicialmente às escolas estaduais de Curitiba e também municipais, (estas por força de Decreto n° 897, da Prefeitura Municipal de Curitiba) expande-se gradativamente a todo o Estado por força da Resolução n° 48545 de 25 de setembro de 1985 e, posteriormente, nº 484 de 12 de novembro de 1986 e Ordem de Serviço nº 029 de 10 de novembro de 1987 e atualmente pela Resolução nº 4.180/91.
Desde 1976, de forma discreta e efetivamente a partir de 1981, a ASSINTEC vem participando de Encontros Nacionais de Ensino Religioso promovidos pela CNBB, com o intuito de tornar mais efetivos os trabalhos referentes ao Ensino Religioso, não só a nível estadual, mas com vistas à unidade Nacional. Assim sendo, a Constituição Federal, Capítulo III, Seção I, artigo 210 parágrafo 1º : “ O Ensino Religioso de matrícula facultativa, constituirá, disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental”. Sua ação não pára aí. Com vistas a garantir o Ensino Religioso na Constituição Estadual do Paraná, realiza pesquisa junto aos pais de alunos, dos quais 92 % manifestaram-se a favor da Educação Religiosa nas Escolas Públicas. No tocante às autoridades religiosas, a ASSINTEC promoveu, em julho de 1988 em Curitiba, a I Consulta Ecumênica sobre Educação Religiosa do Paraná, da qual participaram bispos, padres e pastores, representantes de 15 Igrejas Cristãs e, deste evento, resultou uma Carta Aberta, enfatizando o apoio das autoridades presentes no mesmo em favor da Educação Religiosa Interconfessional nas Escolas da Rede Oficial de
Ensino.

2. A NECESSIDADE DA RELAÇÃO COM O SAGRADO

Antes de tudo, é importante notar que onde um grupo de pessoas civilizadas se reúne para tomar decisões sérias, este lugar é sagrado. Desde os primórdios da humanidade, a pessoa humana defronta-se com situações da realidade vivida que lhe são verdadeiros desafios, situações limite: a morte, a doença, o heroísmo, o amor, o nascimento, grandes opções (casamento, separação, profissão, estudo, pesquisa...).
Frente a estas situações a pessoa se pergunta sobre o porquê delas, buscando o verdadeiro sentido para a vida (para quê). Por isso passa a indagar-se: de onde vim? Quem sou? O que acontece depois da morte? Por que e para quê isso acontece comigo? Coisas parecidas com o que a propaganda da TV diz no momento atual. Assim há um choque, tensão, angústia, conflito entre a realidade vivida (experiências pessoais, vividas, consciente) e a realidade do inexplicável, que transcende o tempo, a consciência e o mundo palpável. Buscamos o sentido pleno da vida.
Por outro lado, a falta de sentido de vida, gera um sentimento de vazio e inutilidade que pode acabar por se transformar em neurose. Edgar Morin, em seu livro “O Enigma do Homem” exemplifica o que o imaginário se rompe quando diz que: “...o homem das cavernas ao pintar os animais, não queria apenas expressar arte, mas dava ao desenho (símbolo) um caráter de magia (proteção e sorte)”. Ele também queria atrair os animais para abatê-lo como reservas de alimento.
Temos na filosofia grega a transcendência desse imaginário, do mito. Sócrates e Platão nos ensinaram sobre a tripartição da alma e afirmaram que a alma humana, quando virtuosa, esforçada para o conhecimento, retornará para onde veio.
No dia a dia das várias religiões, estas convivem com dezenas de símbolos. O símbolo dispensa explicações. Ele fala por si, remete a pessoa àquilo que é primordial, que é profundamente essencial e necessário à identidade pessoal e coletiva que somos. Esse primordial é visto nos caracteres primeiros (marcas, impressões,experiências), arcaicos e significativos, que estão no inconsciente pessoal e coletivo, os quais chamamos de arquétipos. Os símbolos remetem ao ser humano além dos limites do tempo (histórico ou cronológico) e do espaço. Falando claramente de alguns símbolos: á água, o fogo, as vestes dos dirigentes de uma liturgia, o pão, o vinho etc, estes colocam as pessoas na “viagem” ao ponto de origem de onde tudo saiu e começou. Só a espécie humana é capaz de fazer esta “viagem”. Tal viagem tem que ser experimentada através de um convívio ordinário.
3. O real e o imaginário
A linguagem do IMAGINÁRIO, é MÍTICA, SIMBÓLICA, DE FÉ e pode se expressar por: a) Uma abertura pessoal ao transcendente, a qual chamamos de religiosidade; b) Por gestos que suscitam a tentativa de dominar o inexplicável, colocando-o a serviço próprio, caracterizando a MAGIA; c) Gestos de adoração (ritos, festas, celebrações) dando origem à religião, que reconhece a transcendência, o absoluto e é uma expressão comunitária. Estas expressões estão intimamente ligadas à cultura. O ser humano fala do mundo transcendente usando uma linguagem simbólica – cultural. Hoje, num mundo secularizado em que vivemos, muitas vezes o ser humano não está engajado numa religião (comunidade de fé), mas ninguém consegue apagar dele, nem ele próprio, a chama da busca da transcendência. É inerente ao ser humano o desejo de ultrapassar seus limites, de experimentar o divino, o infinito, embora este desejo se manifeste diferencialmente em cada pessoa. Se a escola tem o dever de promover uma educação total, isto é, da pessoa em todas as suas dimensões (física, social, intelectual, ética, estética, afetiva e religiosa), o aspecto da religiosidade não pode ser esquecido.Ele ajudará o educando a encontrar o sentido de vida e a compromissar-se com a sociedade visando melhorá-la, sem alienar-se.

4. conclusão

Do ponto de vista didático, cada disciplina tem uma forma de linguagem que lhe é própria. Físicos teóricos empregam em sua comunicação, vocábulos cuja significação é completamente estranha a economistas, juristas etc. A Educação Religiosa como postura pedagógica e o Ensino Religioso como disciplina curricular de formação de consciência ético-religiosa, têm um conteúdo religioso, de caráter teológico, como a Educação Artística tem caráter estético e as Ciências um caráter científico. Esse conteúdo religioso para uma compreensão eficaz, precisa ser traduzido e decodificado em termos pedagógicos. Isso porque a escola pública é um espaço aconfessional, espaço da educação, que não usa uma linguagem eclesial, específica, teológica. A Educação Religiosa, como educação da religiosidade, que é anterior à própria religião tem por isso uma linguagem específica.
Na escola pública predomina uma população da classe trabalhadora, que na sua maioria, tem uma mentalidade religiosa mágica, mítica e acrítica. Assim a escola se constitui o lugar onde se manifestam múltiplas formas de expressões religiosas passíveis de manipulação político- econômica- ideológica. E é com esse código religioso que essa fatia da sociedade faz sua leitura do mundo. Por isso, ao profissional de Ensino Religioso, impõe-se uma formação e capacitação cuja linguagem religiosa passa por 3 níveis: 1°) Apropriar- se do discurso religioso (nível de formação acadêmica). 2°) Saber traduzí-lo pedagogicamente (nível de competência técnica e profissional). 3°)Articular o discurso religioso ao “código religioso popular” (nível de engajamento político-social). Assim a linguagem religiosa que passa por esses níveis de comunicação, torna-se um instrumento tão eficaz quanto necessário à
educação do senso religioso do nosso povo.

5. Referências

ALVES, Rubem. O que é religião. S. P. Brasiliense,1981.
ASSINTEC, Boletim, n°49, ano 11. Curitiba – PR. 1987.
BOFF, Leonardo. Nova Evangelização. Petrópolis – RJ. Ed. Vozes. 1990
BOFF, Leonardo .Teologia do cativeiro e libertação. Petrópolis – RJ. Ed. Vozes. 1980.
CAMPBELL, Joseph . O poder do mito. SP. Ed.Palas Athena.1990.
ELIADE, Mircea.O sagrado e o profano. Lisboa .Ed.Livros do Brasil.
FREIRE, Paulo.Educação e mudança. RJ. Ed. Paz e Terra 9 ed, 1985.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. RJ. Ed. Paz e Terra. 17 ed, 1980.
FROM, Erich. A revolução da esperança. R J. Zahar Editores.1987.
GADOTTI, Moacir. Concepção dialética de educação. S.P. Ed.Cortez.6 a .Ed.1988.
LIBANEO,J.B. sj. Formação da Consciência Crítica.Petrópolis – RJ. Ed. Vozes. ed. (C.R.B.), 1982.
SAVIANI, Demerval. Educação: do senso comum à consciência filosófica. SP. ed. Cortez, 1989.

Um comentário:

Dema disse...

Muito boa a postagem, Afonso. Interessante divulgar o blog aos autores do trabalho.
A questão religiosa na escola é coisa séria, preocupante. Não se nega a necessidade da educação religiosa na escola, todavia, a forma de se exercitá-la há que ser bem discutida sob a ótica da eficácia. Se mal conduzida, pode levar à banalização e desimportância. É comum entre os alunos a idéia de que o ensino religioso é conteúdo menor que os demais: não obrigatório, não reprova, não gera dependência etc.