segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Quebra



dema

Como sói doer um coração magoado
de quem, de repente, sente-se traído.
Vê-se ora a vagar, então, desnorteado,
implorando, à vida, um novo sentido.

Onde o desarranjo em tanta harmonia,
qual serpente fora que se intrometera
pra plantar o joio, criando agonia,
em alma bondosa que jamais sofrera?

Esta, que não teve ainda a desventura
de provar o amargo de um desamor,
põe-se, abruptamente, à busca de aventura,
como se já morto fosse o velho amor.

É possível que encontre um ardor de palha,
enquanto a ilusão se agarrar ao mistério
e, ao ser revelado, se envolva em mortalha,
por desconformar-se a sentimento sério.

Não cabe retorno pro amor antigo,
tão consolidado, decorridos anos,
que, uma vez quebrado, implicará castigo
a quem o quebrou e sofreu desenganos.

O lado perverso, muito mais que trágico,
é que apenas um causara esse mal,
a solidão, porém, por efeito mágico,
restará pra ambos em dose letal.




Novo dia



dema


Abraçados, sob o lençol da dor,
sobrevivem o sonho e a esperança.
A aurora descortina manhã radiante,
com o sol a reger o canto das cigarras.
De tardezinha, a chuva rega a paisagem
e à noite, haverá nova pintura de estrelas no céu.
Novo dia, novo amor, nova paixão.
Liame plantado no respeito, no carinho e confiança.
Nada de arestas do egoísmo.
Oportuniza-se uma nova profissão de fé.
Corre o tempo, todavia, com roda suspensa.
Urge restar um lapso de vida renovada.
Que a solidão se debruce à beira do abismo
e discuta sobrevida com a morte.
Esta, que me aguarde.

Meu onde



dema


Meu onde não tem paralelo nem fuso,
perdido me encontro e bastante confuso.

Em mar aberto, depois da procela,
lançado à sorte, sem estrela norte,
meu barco à vela à deriva desliza,
com bruma densa, numa leve brisa,
tal grão de areia de nula fortuna
que o vento transporta de duna em duna.

Na sombra da noite, me vejo cego
e não disponho de lanterna alguma.
Eis que me aflijo, em verdade, não nego;
solidão ou morte, a nova consorte,
é o que me espera e também desapruma..

Embora minh’alma, o inverso, carregue,
montão de emoções que nunca têm fim,,
de ódio, de amor, de ternura, desejos,
que há tanto tempo vens provocando em mim,
mina pronta a explodir em tacas e beijos,
se tiras o pé, acionando o estopim.

Mui mais perto quisera meu porto certo
e a luz do farol refletir tua imagem,
derradeira miragem que a Deus pedi,
advindo, com ela, absoluta certeza

de que teu grande amor de fato perdi.


quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Anjos decaídos



dema

Transportam no dorso o peso do pecado,
a arrogância de se acharem deuses de si mesmos.
Caso não engolidos por buracos camuflados,
expulsos do éden, perambulam a esmo.

Outros, entretanto, vagueiam pela Terra
e incitam os homens à prática do mal,
disseminam a mentira, a ganância, a guerra,
vão fazendo da morte um fato normal.

Seres maléficos, como forças do além,
bruxas semi-eternas em vassouras aladas,
quando ainda presentes em humanos do bem,
enfraquecem o amor e o carinho a estocadas.

Sonham vagar pelo espaço sidéreo,
vencer longas jornadas no céu estrelado,
mas anjos decaídos não pairam no etéreo,
espatifam-se no fundo de cânions vazados.

E eu, aqui pasmo, mais do que boquiaberto,
faço um pedido ao Deus Criador,
que nos afaste do mal encoberto
por artimanhas de um falso amor.



terça-feira, 5 de novembro de 2019

Incongruências



dema

Incongruências detonam teses,
simulam realidades inexistentes
ou mascaram outras verdadeiras.

Suscitam resultados indesejáveis,
estimulam ilações perversas,
produzem dubiedade e descrença.

Não sanadas, insanáveis se tornam,
por extemporaneidade,
justificativas imprestáveis
e/ou má fé.

Parem factoides absurdos.
Obstaculizam a verdade libertadora
que quebra grilhões opressores do peito
e dá razão às coisas e fatos.

Quatro cigarras mortas na mesma trilha
levam a uma segura profissão de fé
na desejada realidade oculta.
Não encontrá-las consuma o incerto.

Resta à divindade o facho de luz
para afastar a maleficência
e as arestas desconexas.
Então, a luz reascenderá a alma
debilitada pela incerteza.

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Sou natureza



dema

É verão.
Mergulho nas ondas de piso branco
e emerjo para o sol,
para o azul do céu abraçado ao azul das águas,
para ser beijado pela brisa leve
que areja a manhã radiante.
Sou menino brotado das profundezas,
com gosto de vida e de paz;
o momento que se deseja,
a esperança de que a luz não se apague,
de que o prazer se eternize,
de que as gaivotas persistam em seu revoar.
Sou a felicidade almejada,
blindada das dores, dos dissabores,
das querelas humanas.
Sou natureza de luar prescindível.
Não tenho idade,
sou eterno em pasmar.
Um barco passa ao longe,
Chama-me à realidade.
Recuso-me ao aceite.
Que depressa se vá!
Queima-me a face, nem o sinto.
Estou para o sol, a brisa e o mar.


segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Passar



dema

Dá-nos boas vindas, a brisa da tarde,
soprada fresca do mar azul-turquesa,
alento de vida com gosto de alarde,
a insculpir, nos olhos sedentos de beleza,
imagens vivas da natureza.
O tempo urge, célere corre e morde
o calcanhar do ontem.
Quando menos se espera, agora é depois.
A manhã desfaz a noite com a luz do sol
que, mal chegado, zarpa rumo ao poente.
Nem se contam as horas, vão-se os dias,
passam-se os meses e, logo, os anos.
Vai-se a infância, a mocidade, voam os sonhos.
O passar engole desejos e esperanças
de rostos encovados que a labuta cansa.
Avança em reta, sem qualquer recuo,
quando em vez abrandado por uma lembrança.
O tempo passa e a vida se esvai.