dema
Cada giro um dia,
orbital um ano.
Se por sorte,
se por engano,
viu a luz,
traçado o plano.
Menino pobre,
mas “menino homem”,
não era tolo,
não passou fome.
Deixou o ninho inda bem cedo,
aventureiro, sem medo.
Dedicou a Deus doze orbitais,
fez dos amigos irmãos e pais.
Enveredou-se pelas humanas,
sobremodo greco-romanas:
Sociais e Filosofia,
História e Geografia,
até um pouco de Teologia;
depois Direito e pós-graduado,
mas não mestrado.
Mais uma dúzia de translações
consagradas à sociedade:
regeu discentes,
regeu escola;
o salário, quase esmola,
mais parecia ser caridade.
Com esposa e filhos, não havia jeito,
era preciso mudar de eito,
trocou de ofício com sacrifício.
Cobrar imposto, ah, que coitado!
“Isso é pesado, é pra Zaqueu,
mas se alguém o faz, que seja eu” _ dizia _
“Se não o fizesse, outro o faria”.
Que o Senhor seja louvado!
Ganha amigos, outros irmãos;
é respeitado, de coração.
Bodas de prata neste mister
marcam o giro de dar adeus,
rezar com fé e agradecer
a Deus e aos amigos seus
ora se impõe por gratidão,
sinceridade e obrigação.
Esquecê-los, jamais,
dizer-lhes apenas: “até mais!”
Quem sabe elípticas ainda restam,
como também outros devaneios
em seu caminho inda a trilhar
antes que cheguem últimos “ais”
do pré-traçado e abraçado fado.
Por ora, amigos, deixa o abraço,
diz “Até mais!”
sem rituais.
"NUNCA É TARDE" é um blog que divulga ideias e produções que podem incrementar sua bagagem cultural. Traz textos profissionais, religiosos, literários, filosóficos, dentre outros.
quinta-feira, 18 de outubro de 2012
Giros e orbitais
terça-feira, 9 de outubro de 2012
Negaça
dema
Aguardo teu cio,
felino, te negaceio.
Tua vida,
minha sobrevida.
Darwin me diria “sim”.
À caça da presa,
te espreito, me reteso,
armo o pulo.
Não passas,
sorte tua,
meu azar.
Farfalhas na verde folhagem da vida-arvoredo,
tenho nas mãos o teu medo,
tua inocência;
quero o teu segredo,
sem clemência.
A fortuna te agracia,
mas chegará a hora, o dia,
do salto, o momento,
pra matar-te com profundo sentimento
e fantasia.
Far-te-á vítima a paixão
que a mim maltrata.
Por inteira, tomar-te-á,
te domará.
De tua algoz à sempiterna companheira.
Perpétuo fará teu sacrifício.
E tu me tomarás em posse,
aos poucos, em domínio.
Ter-me-ás em propriedade plena,
algozes e vítimas em recíprocas,
inferno e céu,
desnudos de solidão,
imersos no tempo da eternidade,
sucumbir-nos-emos.
...
sábado, 6 de outubro de 2012
Nada e ninguém
dema
Sou nada,
sou ninguém.
Para mim a vida vai,
pra você ainda vem.
Não sei se vou levando a vida
ou se ela é quem vai me levando;
se me leva é direto pra morte,
que parece se achar me esperando.
Preciso contar com a sorte,
não ser pego de surpresa;
quero olhar nos olhos dela,
quero ter toda a certeza.
Se me busca a morte agora,
juro, não terei tristeza,
não joguei a vida fora,
vivi-a com profundeza.
Se o que fui vale mais nada,
menos vale o que ora sou;
sem futuro, sou piada,
sem passado, o que restou.
Para mim a vida vai,
pra você ainda vem,
e o que sou é ser um nada,
ser um nada é ser ninguém.
sexta-feira, 28 de setembro de 2012
A arte me fascina
dema
Não me importaria viver vida chata
se eu fizesse arte quando ao escrever;
na certa, jamais ela seria ingrata
ao vibrar d’alma de quem a fosse ler.
O que vive só já tem sua companhia,
com quem interage em languidez noturna.
Juntos, longe o sono, produzem poesia,
vez a solidão ser nada taciturna.
Criam seus castelos de tempos passados,
habitados por sonhos, por fantasia,
com fossas profundas por todos os lados
de dormentes águas e olor maresia.
Relatam amores, paixões, despedidas
ou tertúlias, saraus, jantares e festas;
cochicham tramoias, traições fratricidas
durante cochilo nas horas de sesta.
Cometem pecados ao som de serestas
cantadas à mente tão só virtuais;
depois o confiteor ao deus que lhes resta
mais a penitência pelos capitais.
Remetem-se pra Marte, Saturno e Júpiter,
em outras galáxias longínquas se internam.
Nas naves fantasmas, com Deus ou com Lúcifer,
vagam pelo universo ou nelas se hibernam.
Nem mesmo se lembram da vida em rotina
pois se levantam ou se deitam co’a sorte,
mas eu, por enquanto, encarado da morte,
queria na arte encontrar minha sina.
sexta-feira, 14 de setembro de 2012
O tamanho do meu universo
dema
Qual o tamanho do meu universo
que canto em prosa e mais vezes em verso?
É do tamanho do meu pensamento,
quando encarnando todo o sentimento.
Será do tamanho da dor que sente
qualquer mãe que perde o filho pra droga,
da insensatez do juiz inclemente
que, pra decidir, vende a própria toga.
Mede a injustiça que a Justiça faz
sem a venda nos olhos pra julgar;
ao invés de a Deus, serve a Satanás,
mas no meu mundo não tem seu lugar.
É tal o nojo que enjoa a criança
quando forçada para o coito adulto
pelo canalha a merecer vingança
dos meliantes que lhe negam indulto.
É do tamanho das guerrilhas bestas
que ceifam vidas de pobres soldados,
que fazem órfãos bebês inda em cestas.
Que as travem, pois, os comandos malvados.
Tem o tamanho da fome etíope,
dos acres de soja e canaviais;
a dimensão desse sistema míope
priorizando só os capitais.
É mensurado por toda a incultura,
fruto da mídia ao servir o poder,
pra manuseio da massa em moldura
de garantia de ali apodrecer.
Tem o tamanho do amor egoísta
quando espezinha a fiel companheira,
que se apegada a um sentir altruísta
por filhos se humilha até a vida inteira.
Medido tal como o individualismo
que hoje permeia toda sociedade,
reclamante, mesmo com cepticismo,
de um pouco mais de solidariedade.
Mede, contudo, mais exatamente,
minha vida plena de solidão.
É da largueza do que tenho em mente
e da grandeza de meu coração.
quinta-feira, 13 de setembro de 2012
Socó
dema
Enquanto o amanhã não chega,
vou vivendo o hoje,
a degustar o verde margeando
o espelho d’água prata,
que duplica a mata.
Súbito, emerge a piaba em alto salto sobre a larva ereimerge
em eixo de círculos divergentes que se formam e se espalham
no embaralho da imagem do astro rei
e da vegetação de margem.
Mais ao longe, arranha-céus buscam o espaço
e o jato risca o céu em descompasso
às minúsculas ondas circulares da (e)imersão da piaba.Um socó corre na areia. Para decepcionado: o peixinho à flor d’água não retorna.
Lança, então, uma semente, mas ela afunda.Com ela submergem meus pensares.E a vida crepita ao redor.
Estou só, no meio de tudo e do meu nada.
Imagina-te
dema
Imagina-te princesa
ou então minha rainha,
presente, por gentileza,
de minha fada madrinha.
Ainda que me quisesses,
feliz eu não te faria,
pois o amor me enlouquece
e ele te sufocaria.
No arroubo do desejo
eu me perco à tua imagem,
ao degustar o teu beijo,
não serei meu próprio pajem.
Desejar-te tanto assim
há matar os teus quereres;
ter-te, louco, só pra mim
sói minar os teus poderes.
Que trago eu a oferecer-te
senão amor egoísta?
Que prazer terás de haver-me,
se não ages masoquista?
És meu sonho de consumo.
Teu viço de juventude
desgoverna-me do prumo
me acentua a senectude.
Que de melhor há que a vida,
que romper os obstáculos?
Não importa se sofrida,
se ela é o próprio espetáculo.
Imagina-te princesa,
faze de ti a mulher
que fascina com a beleza
a quem bem a aprouver
Renuncio ao meu presente
em favor de tu’alforria.
Busco assim ser coerente,
inda que me contrarie.
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