quarta-feira, 22 de abril de 2015

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sexta-feira, 17 de abril de 2015

Sob a égide das estrelas

dema

Despojado da lua e das estrelas,
vê-se breu sem charme algum, o céu;
depressivo refúgio aos já partido,
desencanto dos poetas, se não lúgubres,
vácuo do espírito, escape pro infinito.

Estelar me ponho em hora vespertina,
dos astros já saudoso, se desperta a manhã.
Narciso, arvora-se, o sol, em majestade
e humilha celestiais com luz cegante.

Porquanto grata, ansiosa, a vida expecta
chegar a noite para, então, fazer poesia,
brindar de cálices, presente rubra rosa,
no hall do quarto ao beijo longo dos amantes;
adentro à alcova, pelo vidro da janela,
glamour do ensejo sob o brilho das estrelas.

Elas, na certa, muitas vezes sentirão
saudade intensa deste trovador mirim.
Quem há de enaltecer beleza tanta
ou o esplendor cravado a brilho em véu noturno,
corrente êxtase das almas mui sensíveis?

Senso de perda, fere-me, o ser efêmero,
pseudo dano, se não dono das estrelas,
insatisfeito, só tenho usufruto a termo,
mera legítima que inere à criatura.

Quisera, vero, pois de mim se condoessem,
da tumba inóspita pudesse, eu, contemplá-las
e, de bom grado, a clarear, se dispusessem,
o ermo escuro desta solidão eterna.



sábado, 11 de abril de 2015

Fim de era

dema
A gana de poder fez o vermelho esmaecido
no empanturrar-se com as burras do Tesouro.
A outrora dignidade-cerne ora fede podridão.
Eis traçado o próprio, próximo e eterno destino:
a cova profunda com o lapidado epitáfio:

“Aqui jaz a esperança corrompida.”


quinta-feira, 9 de abril de 2015

Cansei-me


dema


Cansei-me de ser
a epopeia de Camões,
a garota de Vinicius,
a pedra de Drummond.

Recuso-me navio negreiro,
como me renego fingimento de Pessoa,
a canção desesperada de Neruda
e a lírica voz de Cecília.

Cansei-me de ser luar,
estrelas,
azul
e mar.
Cansei-me de ser amar.

Dispenso dar razão
a erguer de taças,
repudio-me alimento das traças.

Longe de mim ser
o mármore orvalhado
a cobrir a tumba fria.

Já ninguém me abraça,
ninguém me acaricia.
Cansei-me de ser poesia.

demasilva

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Rasputin

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domingo, 22 de março de 2015

Donde as águas

dema

De onde procedem as águas
que encharcam nossos quintais,
contam-nos as Borboletas
Monarcas do Canadá,
ainda as arribaçãs,
em gorjeios- recitais,
nos voos que realizam
daqui (pra lá ) e de lá pra cá.

Pra onde correm as águas
(que não as dos rios pro mar)
de nossos mananciais
sem foz para o desaguar?
Que o digam os pivôs no campo
e os homens de má gestão
Ou mesmo as donas de casa
varrendo por lavação.

Por que sumiram as nascentes
(até a do São Francisco)
e ora se encontram doentes
os bichos fora de aprisco?

Desmate da orla dos rios.
dos lagos e nos pantanais;
de escudo os torna vazios
e chegam os areais.
Embora se vão fauna e flora,
as águas se escasseiam;
e vendo, meus olhos choram,
lágrimas não mais semeiam.

Que o Senhor nos ilumine,
nos abra de vez a razão,
e a vida então não termine
por conta da desolação.

Vida é movimento


dema

Elementar, meu caro Watson,
vida é feita de movimento.
Os olhos não ficam na bunda
nem a bunda fica na frente.
Não seria nada agradável
perseguir a merda da gente.

Caranguejo corre de lado,
inda quando a areia está quente,
mas nós outros, seres humanos,
só pisamos o chão que vemos.

Empurra, estica, então encolhe,
assim é que se movimenta,
para o que tem pernas é mole,
quem rasteja também aguenta.
Empurra, estica, então encolhe,
eis a cobra em deslocamento.

A hélice impulsiona a água,
pro barco levantar a proa;
bem se sabe, remo parado
jamais tocará a canoa.

Suas asas batem as aves
deslocam o ar e revoam;
com turbinas o faz o jato
no trajeto Rio-Lisboa.

Os peixes só se movimentam
enquanto se mexem na água.
Se as coisas caminham diverso,
trar-nos-ão, com certeza, mágoa.

Diverge de tudo, a saudade,
pois anda de frente pra trás,
não parece coisa divina,
talvez seja de Satanás.

Até mesmo as plantas terrestres
se deliciam com o vento.
Elementar, meu caro Watson,
não há vida sem movimento.