sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Quem sabe “Marte”?

dema


Margaridas dobram-se sobre as hastes.
Calor infernal.
Murchos, inclusive, meus pensamentos.
Pássaros querelam pelos tolos insetos,
dispensam  lagartas céleres em busca de paredes cobertas.
Domésticas “rapam” do serviço; as madames, na certa,
não voltam cedo do shopping.  (Do shopping?)
Verdade, surrupiaram a verba para as escolas de pau a pique.
Abarrotados, os cofres suíços e de Cayman recusam dólares sujos.
Apagam-se as centelhas restantes do matutino ataque de mísseis russos aos redutos bárbaros nas terras sírio-iraquianas.
Contêineres brancos cozinham, dia após dia, milhares de refugiados por ali.
Escravizadas meninas yazidis, fugidas de seus estupradores,
tentam expulsar os traumas para o espaço vazio em que fitam.
Faltam anjos para a guarda dos vivos.
Talvez estejam se dopando na América ou a abusar de coroinhas.
Ao capital pouco importa o regime, a ideologia.
E agora? Onde a propina para as eleições seguintes?
Se as instituições funcionam, rotulam-nas parciais.
Hospitais e postos já não atendem: doentes de mais e recursos de menos.
Deus, só de butuca: “imprestáveis!”.
Perdido nesse mundo abestado, eu. Você?
Quem sabe “Marte”!

sábado, 3 de outubro de 2015

Compromisso


dema

Hoje, novamente sábado,
dia de fazer poesia;
mas a seca corre brava,
sem capim, sem boi de guia.
Como falar de beleza,
com a cabeça assim vazia?

Não vou tratar de maldade,
de mentira, falcatrua,
muito menos da vaidade,
seja minha, seja sua.
Melhor, talvez, o silêncio,
se a pachorra continua.

Sem estro, musa, sem verso;
sem gozo, rima ou alegria.
Não que eu pareça perverso,
mas ora ocorre diverso,
do dia bom pra poesia.
Quem sabe eu me encontre imerso
no torpor da boemia.

Fica, contudo, o desejo
ou melhor, o compromisso:
batendo em mim a saudade,
dela farei bom ensejo,
para que não reste omisso,
perante a velha amizade.
Do modo como pelejo,
tanto quanto for preciso
darei , de boa vontade,
asas pra imaginação;
vou borrifar com poesia,
amanhã ou qualquer dia,
um texto do coração.



sábado, 26 de setembro de 2015

Procela em pó

(dema)


É noite de trevas.
Súbito, o apocalipse.
O céu por palco da anunciada procela.
Anjos mensageiros tocam as sete trombetas.
É fato, Zeus combate Cronos.
Quer vê-lo vomitar seus irmãos.
Dispara estrondos repetidos, medonhos,
com raios-flashes riscando direções no firmamento.
Dilatados, os olhos, a não mais,
a coruja pia no oco do coqueiro: credo!
Éolo entra na peleja e, com força brutal,
sopra sobre a terra.
Derruba postes e árvores, dobra palmeiras.
Esbravejante, urra sobre as casas,
sibila pelas frestas das janelas.
Oh, que deuses!
Geb quer cegar Nut, rainha do breu.
Em abundância, levanta o pó,
que o deus do vento deposita sobre o pátio.
Apavorado, Pedro, pega carona na quadriga de Ares
e zarpa, levando a chuva.
Por óbvio, sem água e sem luz,
não haverá arco-iris.
O cheiro de terra avoca espirros.
O suor, à vez, encharca lençóis.
Um estalo. A luz do corredor se apaga.
Por horas, agitam-se os espíritos da natureza.
Finalmente, adormeço.
Sonho grama molhada,
flores, pássaros.
De manhã, abro a janela:
o pátio branco tinto de um fofo marrom avermelhado.
Ao menos, o mundo ainda está.

sábado, 19 de setembro de 2015

Manhã de sábado

dema

É de manhã.
Sábado de sol e pardais.
No azul transparente de infinito,
raras e esparsas nuvens.
Uma brisa leve nina as folhas das palmeiras.
A piaba emerge em salto
e abocanha o incauto inseto.
Círculos de minúsculas ondas
se produzem no espelho d’água,
desenhando a percussão do fato.
O cão ressona à sombra,
enquanto, aqui, desejamos
que os corruptos se autodevorem.
Do outro lado, homens afogam crianças,
decepam cabeças,
tornam as cidades escombros,
matam-se no front.
Refugiados e migrantes no beco,
sem ida e sem volta.
Do mirante do universo,
Deus abre um largo sorriso e pensa:
que se fodam!

EM DEMASILVA

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Confissão (do ente)

dema

A vida toda te amei,
bem sabes,
posto que, fingindo, o negues.
Tua alma não mente.
A minha sente saudades,
doces e amargas lembranças
de um tempo distante, recente,
e até do porvir inda ausente.
Em sonhos a tive,
olhar meigo e terno,
lábios róseos,
úmidos, quentes;
respirar ofegante,
o beijo ardente;
sentir vazando dos poros
no agarro ao meu, inocente.
Em jaula, prendeste minh’alma,
o desejo de amar outra vez.
Quimera te fazes,
que, longe, presente te tornas
e meus líricos anseios devoras.
Com rédeas curtas me prendes,
me tanges, me tens
e impedes que eu viva
um amor diferente.
És meu concreto fado,
platônica felicidade,
meu doce e triste
viver carente.

em demasilva

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Meu traço


dema


Voltou-me o olhar de gato arisco
e moveu-se dois passos atrás.
Mediu-me novamente
e, a não me ver mais,
baixou a cabeça no aguardo.
O silêncio transmitia a mensagem de carinho
emitida por meu coração
àquele anjo meigo-medroso.
Leu-a de soslaio,
mas não arrefeceu.
Inconclusa, optou por dar meia volta,
Fechando a porta, ao sair.
Pasmo, de pé, permaneci.
Cruel, não cativante, assustador,
não sei...
Não faço,
não laço.
Quem sabe tão só me ame
- meu traço.


em demasilva

sábado, 5 de setembro de 2015

Hodierna barbárie

dema

Na encruzilhada do desespero,
a carência do abandonado
vê passar com pressa o foragido.
O expurgado atropela o medo do futuro,
enquanto a esperança do moribundo
sublima a dor da morte iminente.
Ouve-se, contínuo, o grito silencioso dos oprimidos,
recrudescido pela fome das crianças etíopes.
A intolerância xenofóbica compete acirradamente
com o ódio à paixão "unigenérica".
Na ampla circunscrição do entorno,
vicejam, em paisagem paradisíaca,
a ganância de poder,
a falsidade política
e a usurpação do patrimônio coletivo.
Célere, prospera, nesse ridículo universo,
a banalização da vida.
Aqui, inserto e submerso, sobrevivo em redoma própria,
onde ainda se vibra com a conquista,
se festeja a amizade,
se chora um amor perdido,
se rejubila pelo encontrado,
e se  faz sentir intensamente a saudade.