segunda-feira, 10 de junho de 2019

Desfecho



dema

Chove torrencialmente, chove.
Pátio alagado.
No peito, coração aos saltos.
Aproxima-se o sim.
Medo, pavor, segredo.

A campainha soa:
uma donzela molhada, uma rosa
e um desejo: Seja feliz!
(Mentiroso e desgraçado desejo,
encharcado de chuva e de lágrimas...)

Lá longe, mais alguém chora.
Engasga-se com os próprios soluços.
Súbito, estupidamente, quebra a taça.
Pelos cacos, o amor escapa.
(Por que te vais, oh vida minha?)

Buquê nas mãos, véu e grinalda,
a noiva espera que a chuva passe
e o carro a leve para a matriz.
“Velvet, costuras de amor”.

Amante, amada, prometida.
Que desgraças, meu Deus!
Lágrimas e solidária solidão.






segunda-feira, 27 de maio de 2019

Atração e repulsa



dema

Elétrons em giro ao núcleo,
satélites aos planetas,
planetas aos sóis,
sóis em orbitais galácticos.
Gulosos de matéria e luz,
buracos negros engolem galáxias
para, ao depois, hibernarem no escuro Universo.
Talvez regurgitem ou reproduzam novos big bangs.
Atração e repulsa, as donas do pedaço físico e metafísico.
Uma aproxima, junta, une,
donde empatia, amizade, amor;
outra empurra, espalha, expande;
deflagrada ou detonada, mata.
Se a ninguém mais atrais,
se nada ou ninguém te atrai,
se és pura inércia,
clama o fim, que tua hora é certa.
Cava a cova,
deita e espera!


terça-feira, 21 de maio de 2019

Anverso e reverso



dema

Em essência,
um contrassenso:
(Que fazer? _ Paciência!
Sinto e penso.)

Sou sólido e líquido,
matéria e espírito;
carne e osso,
canela e pescoço;
um tubo em dobras
de entrada e sobras.

Amo e odeio,
sou belo e feio;
inteiro e metade,
modéstia, vaidade;
sou espúrio e puro
no claro e no escuro.

Nasci, vou morrer,
sou efemeridade,
porém, quero viver
para a eternidade;
não sei donde vim
nem para onde vou,
mas sei que do fim
só Deus escapou.

Sou coragem e medo,
transparência, segredo,
anjo e diabo,
um bicho sem rabo;
loquaz e mudo,
todo ouvidos e surdo.

Sou frágil e forte,
com azar e sorte;
feliz e infeliz,
sou réu e juiz.

Escravo e dono,
tenho insônia e sono;
sou querer e instinto,
sou verdade, mas minto.
Sou tudo e sou pouco,
prudente e louco.

Eis que assim sendo,
não sei até quando,
chorando ou blefando,
sigo vivendo.




sexta-feira, 17 de maio de 2019

Digital divina


dema

Leva-me a outros rincões, a névoa fria,
onde mal chega o sol, senão boreal.
Um raio dourado? Quão bom seria!
Rasgar a bruma e eu me ver real,
erradicar-me do moroso tempo
que me prende, hiberna e consome.

Longe se vai o moço de ver
a silhueta esbelta e se apaixonar.
Grita seu nome, mas a cerração
consome o grito, tudo é tão perto,
mais que finito.

Entorpecida, peleja, a mente,
buscar alegria, inda que esmaecida,
virtuais memórias e novos rumos.
Avizinha-se, todavia, a noite de cintilares opacos,
que o espaço denso sequer descortina.
Donde o farol a clarear visão
do Universo vivo que nos conduz?

No tempo, esperto e lento,
linha sutil ao longo se estira,
traço digital que ampara a vida
do começo ao fim, divino.
Exsurge, então, ufano e grande
e sobrepõe-se à névoa etérea
das galáxias em rodopios,
prova viva de existência e comando,
Deus.
Curvo-me: amém.


http://www.demasilva.com.br/PINEDITOS/DIGITAL_DIVINA.html

terça-feira, 9 de abril de 2019

Diário


dema

Linda, mais linda não há,
maravilha,
carnaval, folia.
Oh, lá vem chuva
- adeus ciclovia!
Carro afogado nos rios das ruas,
barreira caída,
casas levadas, sonhos perdidos.
Há de tudo no morro
vizinho da city:
funk, churrasco na laje;
bala de festa, festim,
de fuzil, de metralha
(sibila perdida
à caça de vida);
gente de muita e de pouca coragem,
gente grã-fina e gentalha.
De noite ou de dia, o bandido desce,
invade, arrasta,
sequestra e mata.
Lá onde o Estado não chega,
milícia comanda, gangue discorda,
o caveira invade, a polícia massacra
(quem tem perna se esconde na mata).
Num monte mais alto,
olhando a cidade
o Cristo (diz-se que) redime,
sobre a névoa corrompida,
alucinógena até,
o pobre, o rico, o santo, o bandido,
a morte e o crime.
Comédia e tragédia,
diário de um Rio.



http://www.demasilva.com.br/PINEDITOS/DIARIO.html

quinta-feira, 28 de março de 2019

Brilhante sonhado



dema


Já cansado, cético,
toma, cotidianamente, da gasta pena
e lavra.
Entre fôrmas de seixos brilhantes,
perde-se gênio,
vê-se medíocre.
Sonha coroar, com a gema pura,
o topo da bateia de versos,
o poema-poesia,
a obra-mestra.
Não importa o ouro,
mas o brilho do tesouro.
Quem dera viesse a musa- encanto
e, entre diversos,
apontasse o seixo sonhado,
a poesia cristalizada,
de todos, agrado.
Cai a tarde, vem a noite,
segue o açoite.
Que cruel o seu fado!


segunda-feira, 11 de março de 2019

Cosmonauta


dema


Plenamente livre,
quando só, me sinto.
O Universo à vista
me inebria: viajo.
Nem Deus, nem parte,
sou distinto.
Não minto.
Semideus me vejo:
penso, abarco o existente,
inda que nele estando,
e vou além.
Sou presente-futuro,
lembranças, amores, dissabores;
eterno num instante,
noutro, poente.
Rio das barbáries,
risco o inalcançável.
Sou quase supremo
e nada:
microcosmo a cintilar imperceptível
no emaranhado das  galáxias.
Louvo ao Criador.

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