domingo, 15 de junho de 2014

Vento safado


dema


Insistente, malicioso,
o vento noturno vaza a janela.
Vem, ardiloso,
sussurrar aos ouvidos dela
lembranças ternas, não arredias,
de lascivos afagos e carícias.
Hálito quente umedece-lhe o colo.
Ofegante, desce aos seios hígidos.
Então, com dolo,
eriça-lhe os mamilos.
O beijo prolongado suga com a língua
a seiva da alma.
No enlace rude de braços fortes o corpo mingua,
mas não pede trégua nem calma.
Calor intenso dela se apossa,
excitação a acossa,
levando-a, na rendição inconsciente,
entreabrir as pernas. E logo sente
o arrepiar dos pelos
com o suave deslizar do lençol de cetim.
Nua, contorce-se sem qualquer apelo
e experimenta o amor
penetrar-lhe o ser com frenesim.
Longe a tristeza, a dor;
pura emoção, sentido, paixão.
Nenhum ai, tão só gemidos e rolar de corpos.
Um baque... é o chão.
Que merda!



DEMAISILVA

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Ex-Iugo

dema

Meu sangue eslavo corre sofrido
com a cor cinzenta do oprimido,
por bizantino, antes, romano
e muito tempo por otomano.
Mas hoje é bósnio-montenegrino,
macedônio, sérvio-croata,
“voivodino”, herzegovino;
não de barata nem de matar,
não menos búlgaro ou kosovar,
flui esloveno, quiçá romeno;
(amo em terra, choro se ao mar);
de continentes eu sou esquina,
raiz, talvez, da malvada sina.

Que Alá me proteja
em mesquita e igreja;
creio ortodoxo, rezo italiano,
Abdallāh e Cristiano,
paradoxo não heterodoxo.

Tudo em mim, episódio,
amor e ódio
de imperador, comunista
ditador, monarquista;
republicano, nacionalista.
Rendo glórias a Lazar,
grito vivas a Tito,
o lado sérvio fã... de Slobodan,
(valha-me Deus!)
el carnicero dos Bálcãs
─ dizem meus outros eus.
Patriota idiota.
A paz me entedia,
tal como a rakia,
a guerra me apraz.
Morro mais de uma vez,
muito mais...






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segunda-feira, 9 de junho de 2014

TRUCO VII 2014

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quarta-feira, 4 de junho de 2014

Outro orbe

dema

 (Em homenagem aos insistentes cientistas que pesquisam o universo à procura de mais mundos habitáveis.)


Mil passos no espaço
eu tento e fracasso.
Orbital fiasco,
que asco!

Não canso, não passo.
Mais passo no espaço
e encontro o que caço,
planeta-palácio.

Uns passos no paço
já não mais em falso,
eu piso descalço
o que ando no encalço.

Chão velho, velhinho
até mais que a terra
(a gigante cratera),
pra ser novo ninho.

Virgem, porém,
sem qualquer vestígio
de tanta fuligem,
que só aqui tem.

Senhor, te bendigo,
se assaz previdente,
pensaste outro abrigo
pro homem imprudente.


terça-feira, 3 de junho de 2014

Pelada

dema


Sempre que a bola rola,
a galera se empolga,
grita, vaia, extrapola,
xinga a mãe, não dá folga.

Pô, meu, que lençol!
Agora, pra gol!
“Veado”, ladrão!
Você não se enxerga?
Pois, então escute
e vê se não nega,
Bandeira cagão!
Seu filho da puta!
Ovo nele, gente!
Agora é o juiz.
Caralho, indecente!
Larápio infeliz.

Vai, cara, de lado,
pro zé, ô, cuidado!
Chute em gol, Mané!
Sem pulo, enche o pé!
É gol, e que gol,
É goooooooool.

Passe a ceva aqui,
ande, Birigui.
Ai, Nossa Senhora,
Lá vem pau, “vam’bora”!

É a paixão nacional,
do plebeu ao cartola.
Nem precisa de escola,
pois tudo é carnaval.

domingo, 1 de junho de 2014

Aeternitas

dema

Nas horas lerdas da noite,
enquanto expõe a nudez do vazio desprovido de sentidos,
o silêncio absoluto diz-nos coisas desconexas.
Percebem-se as mínimas oscilações das ondas eletromagnéticas
a expressarem a preponderância da vida sobre o nada.
O movimento do eterno no espaço infinito
risca o escuro de giz branco com traço retilíneo,
concretando o paradoxo dos conceitos filosóficos opostos.
O silêncio profundo espanca a morbidez presente.
Absorve as esperanças perdidas dos desesperados
e abafa os gemidos de sodomizadas infâncias.
Não há azul nem vermelho,
tão só um opaco espelho,
onde névoas se reproduzem,
ausentes lembranças e futuro.
O momento dilata-se em tempo infindável.
Assim a vida, a paz e o espírito.
Longe, mil vezes, a aurora,
desnecessário novo dia.
Sem greve, sem tormento,
vive-se ad aeternum o momento.
A alma voa no inexistente firmamento.

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quarta-feira, 28 de maio de 2014

Donde a tristeza

dema

Posso afirmar-te, gentil donzela,
quase sempre a tristeza machuca,
sei que a tua te deixa maluca,
mesmo assim continuas mui bela.

Desse olhar perdido no horizonte
jorram mágoas brotadas no tempo.
apesar de tanto contratempo,
desconheces ainda a fonte.

Teu sentir faz-te filha de Hemera
deusa luz, porém, neta de Nix;
brilho e sombras tu trazes à terra,
já de amor és tão só aprendiz.

Se não sabes donde é que ela vem
(e na falta doída de um Bem),
hás de crer vir d’uma companheira,
solidão, que, de toda maneira,
quer ferir fundo o teu coração.
Se, doendo, arrochar o teu peito,
pede a Deus para arrumar um jeito
de encontrares alguma paixão.

Não permitas que tu’alma chore,
vindo a expor tão viva cicatriz
ou repeles quem talvez te adore
e pretenda tornar-te feliz.

Vive a vida tal que graciosa
e jamais tenhas pena de ti;
cromatiza-a com versos cor rosa
junto à minha que a ti prometi.


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