quinta-feira, 21 de junho de 2012

Obsolescência

dema
O tempo não passa
enquanto aguardo que passe.
Afinal, vivo por graça,
sem graça,
vítima de trapaça.
Busquei construir-me e cheguei à desgraça.
O que cultivei, produzi, exauriu-se por si.
Restaram: ausência, solidão, saudades mil.
Então me pergunto:
e a carcaça? O que faço?
Não a quero em banco de praça,
nem a pretendo junto
a quem não me vê graça.
Não me sinto melhor que ninguém,
muito menos aquém.
Doído é o desdém.
Há de haver o que ainda me construa
ou me fiz obsoleto, descarte de rua ?
Corrói-me a alma, o tempo,
e retira, deste esqueleto, a calma.
Hoje não sou o que fui,
ou não seria o que sou,
Com o devir, a vida rui,
a deixar-me como estou.
Rotular-me-ei “alegria”,
para, ao menos, saudar o dia
de quem acaso me olhar
sem ver a ferrugem interior
corroer o resto de amor
que me fez realizar
o projeto de vida,
ora finda.
Fecha-se o círculo.
Fundem-se princípio e fim.







quarta-feira, 20 de junho de 2012

The earth is on line



dema
E gira ao meu dispor
na tela de um monitor.
Strip-tease sem precedente,
o mundo desvela-se à minha frente.
Volteando ou não por Atenas,
bem defronte a meu nariz,
fazendo dois cliques apenas,
vou de São Paulo a Paris.
Em 3D, baixo em Campo de Marte,
e volvendo o olhar para o céu,
deslumbro-me com a Tour Eiffel,
monumento de engenho e de arte.
Mais uns cliques e eu na Catedral,
que Notre Dame nos livre do mal.
Se de ver à francesa me enjoo,
rumo Moscou e, na Praça Vermelha,
com a São Basílio no centro, ao meio,
sou minúsculo, em ter o Kremlin ao crepúsculo.
O suntuoso me atrai,
em devaneio, minh’alma sai e
vagueia. Agora, sigo a Dubai.
Na Burj Khalifa, chamo por Alá.
Pudera, a mil metros quase, haverá de estar lá.
As torres Petronas ficaram pra baixo,
na Malásia, sudeste da Ásia.
Tão longe e tão perto, que sorte a minha,
vendo-as assim tão juntinhas.
Mas, de repente, quero é Nova York.
Alheio, passeio no Central Park.
Ah, o Museu de Cera, a Times Square
e a Brooklyn Bridge para atravessar.
Deslizo o ponteiro pelo litoral,
em Miami estaciono e questiono, afinal,
é ou não minha terra natal?
De então, giro o mundo a parar em Las Vegas,
um drink, um carteado e toco a L.A.
Daí a San Diego, já já chegarei.
Vou cruzando o Pacífico e por Tokyo procuro.
Quero estar em Shangai inda quase no escuro
pra ver só beleza quando a noite cai
e, destarte, espantado, partir pra Beijin.
Depois a muralha marchar aos confins,
escalar as montanhas torrão de Nepal,
e fugir pra Mumbai, sim, pro Taj Mahal.
Seja o amor companheiro ao de onde a partida,
a aquecer sobrevoo da Andes gelada e
pousar minha nave, mas sem despedida
e sem saudação na hora de chegada.
Nauta sonhador, esse mundo percorro,
em trilhar virtual de inegável valor.
Se impossível fazê-lo por vias de fato,
ao menos em tela, apreciando-o eu morro.
The earth is on line,
girando ao meu dispor.
...







domingo, 17 de junho de 2012

Pelos fundos

dema

Procuro adentrar o mundo das letras pela porta dos fundos. Chegarei lá? Sei lá.

No entanto, é pela porta lateral ou pela dos fundos que os atores se dirigem aos camarins e depois ao palco, para, iluminados da ribalta, produzirem o espetáculo.

Mas como me tornar espetáculo de mim mesmo, se pouco sei, se quase nada sei, se o que sei já nem mais sei se sei ou para que serve o que sei?

Um mundo perdido no tempo, num universo próprio, onde Deus entra de teimoso ou porque ali se encontrava quando o tranquei.

O universo da fraternidade do eu só.

Mas e as letras, que perambulam nesse universo e não se prendem por barreiras apenas imaginadas, que perpassam, indo e vindo, corações, mentes e solidões?

Ah, persistirei nesse intento, ainda que não se abram as cortinas para o espetáculo. Ao menos assim o universo solilóquio existirá.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Poeta português

dema
“Eu não escrevo em português. Escrevo eu mesmo” (Fernando Pessoa)


Ensimesmado eu o vejo,
fechando o círculo em si,
girando no próprio eixo
e todo o universo está ali.
Busca sentido pro verso
dobrando as mesmas palavras.
Estaria nisso seu estro
ou no modo como as conchava?
Mas é inegável a beleza
em inspiração tão fecunda
pra descrever a tristeza,
que a todo o tempo o circunda.
Alma de aura arroxeada
externando o choro da vida,
como se a morte almejada
viesse a ser sua guarida.
Lê-lo traz gosto de fel
e o sentir de um belo estranho,
pois lembram-me os versos que o céu
se fizera pra outro rebanho.
Quisera enganar a Deus,
para lá segurar seu lugar,
criando heterônimos seus
e assim poder se safar?
Não me parece, contudo,
senão criação genial
a instigar muito estudo
da obra fenomenal,
que eu, simplório e matuto,
a enxergo tal e qual:
jeito triste de ver a beleza,
mas belo em cantar a tristeza.

sábado, 26 de maio de 2012

Solitário de fibra


dema

Solitário de fibra não vive sozinho
e se o faz, é só. De si não tem dó.
(Sozinho é corno de biqueira,
sem eira nem beira.)
A tudo ausente, satisfaz-se em mente:
deita-se com a solidão
e, beijando a melancolia, se delicia.
Vê beleza na tristeza.
Com doçura, abjura a alegria.
Enquanto pensa em T(t)eresa,
acaricia a amargura.
Enoja-o a festa,
nenhuma lhe presta.
Solitário de fibra não se agarra ao trecho,
busca logo desfecho.
Se brota o ensejo,
se apunhala, ao desejo
e se mata. Oh!
É só.


quinta-feira, 24 de maio de 2012

Mamãe iletrada


dema
Mamãe iletrada lê meu coração com fluência,
vasculha minh’alma e, com opulência de calma,
desembaraça aflições que me levam à demência.
Se a tristeza prima, confirma-me as causas, orienta;
se impera a alegria, dela compartilha e faz sua.
Sem bengala se arrasta, atravessa a rua,
a fazer-me visita.
Pra ser honesto, às vezes, irrita.
Se a ofendo, finge que não se apercebe ou insinua
que a razão é a rotina, o trabalho, a fadiga.
Eu que o diga!
Se tem algum desejo, raramente o diz
E se o diz e não faço, será quando eu puder.
A ela está bem quando me aprouver.
Mamãe iletrada conhece todos os banhos e chás,
benfazejas ervas da horta verdinha cada dia me traz.
Se delas desfaço, a ela tanto faz. Amanhã trará mais.
No fundo, no fundo, ela quer é me ver.
Velhinha, talvez imagine que noutra esfera não mais o fará.
Ledo engano, mamãe.
Se morei em seu ventre,
ter-me-á para sempre
e do seu coração ninguém há de tirar.
Tolo que sou, não lhe dar muito amor,
carregá-la no colo de volta pra casa,
fazer-me as vezes de sua bengala,
abrir meu coração e dizer-lhe,
ao menos uma vez:
que a amo trinta dias por mês.
...

sexta-feira, 18 de maio de 2012

SINA DIVINA (dema)

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Não quereria ser Deus
ou já teria pirado,
oh, que sina a do coitado:
é toda essa gente carente,
cheia de pecado,
rezando, pedindo, implorando
pra ser atendida tal o solicitado.
Eu já teria pirado...

Se fosse Deus e devesse atender
esse povo safado,
faria por atacado.
Só os pedidos de mãe
me deixariam esgotado.
Eu já teria pirado...

Com tanto poder, sem poder
pegar a prainha do lado,
tomar uma cachacinha
e tirar um soninho dobrado.
Eu já teria pirado...

Sei lá,
talvez até isso tenh’ acontecido
e Deus se enlouquecido.
Não terá sido à toa
que deu o seu filho querido
para ser crucificado.
Ai, que sina, meu Deus!
Tudo por seu povo amado.

Pior, nem morrer Ele pode,
pois vive para a eternidade.
Imagine a vontade de Deus,
de trocar-se pela criatura
em vez de ser um incriado.
Antes morrer para sempre
e se livrar de um povo abestado.

Ah, que sina, Senhor, que fado!
Quão pesado há de ser o seu fardo.
Eu já teria pirado...