segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Devagar


dema

Tem-se, ora, disponível todo o tempo
para medir e acompanhar o próprio tempo.
Vê-se espaçar-se o tic do tac.
Sem pressão, a corda perde força
e o mundo gira mais devagar.
Cabem, assim, mais pensamentos e lembranças no minuto.
A nuvem desliza no espaço lentamente,
desforma-se e reforma-se,
um feitio novo por redesenho.
O colibri acelera o bater de asas e adeja no ar trêmulo de primavera.
O néctar mela o bico e a flor se dobra.
Grupo de incontáveis formigas céleres
deslocam morosamente o enorme inseto pela trilha.
O cão esparramado sonha no piso frio da varanda.
Se passarem as horas da tarde alongada,
talvez chegue o amanhã.
Pena que sonolento também esteja o estro,
ou dezenas de poemas nasceriam.
É a paz de alma em calmaria,
da consciência indolor,
vazia de motivos de remorso.
É o tempo se dando tempo
no azáfama contemporâneo.
É a vida gota a gota
a perenizar efemeridade.

EM DEMASILVA

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Pedra flor


dema

Juntando pétala a pétala,
compôs-se, em haste, uma flor;
da paisagem, a mais bela,
pois ela era o amor.

Primara por longo tempo
em ser menina exemplar,
fonte de deslumbramento,
razão pra se a imitar.

Mas a rotina da vida
tomou dela o olor de outrora,
fez, d’harmonia perdida,
a indiferença de agora.

Viu-se a haste, então, dobrada;
pétalas murchas, sem cor;
e o ódio, da flor sonhada,
moldou simples pedra flor.



EM DEMASILVA

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Flash


dema

Vim à luz,
graça da sorte,
para lapidar meu fado com a vida
e, no retorno às trevas,
presentear a morte.
Meteorito incandescente em queda,
quase extinto.
No tempo, centelha
de um piscar de eternidade.


http://www.demasilva.com.br/PINEDITOS/flash.html

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Branco em cinza


dema

Lapido em branco o pensamento cinza.
As cores vivas fugiram para algum jardim.
O sorriso faz-se pálido-aniquilado
em lábios trincados pelo vento hostil.
Na face, pele enrugada e entorpecida
que a barba rala desacoberta.
Não se vê o meio entre o começo e o fim.
Foram se os dias de pensar futuro e apressar o passo,
aqueles em que, podendo ou não, “eu faço”.
Onde coragem de crer no além?
A carne retorna ao pó do planeta azul
nas plagas de  leste, oeste, norte e sul.
Tardes eternas, infindáveis noites.
Anos fugazes. Ô paradoxo!
A alma chora a desesperança.
Vida, fração presente do eterno alheio.
Vivas a Deus, morte ao efêmero!
Sina facínora, Ave!

em demasilva

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Diário do Comércio - lançamento

Confira reportagem - lançamento Apesar da Barbárie

notícia de lançamento

sábado, 15 de julho de 2017

Com ou sem amor


dema

Pensava me encontrar, enfim, liberto
dessa paixão que sinto a descoberto,
como se o tempo jamais existira
e não fosse a vida mais que mentira.

O que esperar do amor não compartido,
desse vazio enorme sem sentido,
desse eterno querer estar contigo,
de padecer um perene castigo.

Ai, Deus que sempre ampara o sofredor,
se a causa do penar provém do amor,
ou se o culpado então for o  destino,
livra-me desta dor, meu desatino.

Por quanto tempo ainda este martírio,
será que até meu último suspiro,
amar distante seja meu calvário
pra ter-te apenas no imaginário?

Ao fim e ao cabo, eu não sei dizer
se viver é melhor se existe amor,
mesmo quando esse amor traga sofrer
ou se, por não o ter, morrer de dor.