quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Malvadez?


dema

Senti-me hoje um torturador fascista.
Aspergi veneno nas palmeiras.
Frustrei eventual metamorfose
de centenas de gorduchas lagartas
que, ab ovo, sonhavam tornar-se borboletas.

Ah, lepidópteros filhos da puta,
que escalpelam e trituram as folhas pinadas,
quedam seu balanço e causam-me tristeza.
Depois, micro-ônibus rechonchudos,
sanfonam-se a grimpar as paredes da garagem.
Se não lhes piso a cabeça, com o esmagar crocante
e espirrar nojento de gosma verde,
ali se fixam e se crisalidam.

Desta feita cortei o fado mandruvalesco.
Vão se despencando trôpegas, nocauteadas
e rolam pelo chão.
Vejo, com prazer, contorcer-se e morrer o inimigo.
Abro um sorriso por deveras cruel.

em demasilva

sábado, 14 de janeiro de 2017

Ah, o azul!


dema

Basta-me o abrir dos olhos
e me deslumbro com o céu azul
misturando-se à cor do mar,
noturno espelho da cruz do sul.

Creio que minh’alma se veste
exclusivamente de azul,
para fundir-se com a tua
e expurgar o sentimento blue.

Se aponto para o horizonte,
identifico tom sobre tom;
com certeza, quis, o Criador,
que ele não fosse marrom.

De novo é o azul quem domina,
suave e sem monotonia;
e se a terra é vista do espaço,
enche os olhos de alegria.

Não desabono qualquer cor,
pois mera refração da luz,
prefiro, contudo, a do amor,
que à intensa harmonia conduz.


EM DEMASILVA

sábado, 31 de dezembro de 2016

Voucher


dema

De repente, como se chegando em disparada,
aportei neste mundo vindo do nada.
Cheguei sozinho, nas mãos o voucher
do retorno ao vazio de ser, ainda que eu sendo,
ou quiçá apenas u’a memória de ter sido
em parte  porção de matéria não abstrata.
Melhor me fosse a certeza do não amanhã
e não me obrigaria pensar-me
um pensamento envolto de não ser.
O ceticismo de um perdurar volátil
confunde minha inteligência e atormenta minh’alma.
O que seja minh’alma, juro que não sei.
Pior que a completa finitude
há de ser o eterno vagar pelo universo
como solitária onda etérea do existir.
Menos que nada é, por certo,
ser bolha, traço ou estilhaço
de existir deserto,
circundado só de espaço.
Não me apraz contar as eras,
festejar trocar os anos,
bebericar reminiscências
ou sonhar projetos.
Grafado meu voucher com letras indeléveis,
‘stou uma onda de ser en passant pela existência,
quem sabe finita,
quem sabe semifinita...

in demasilva

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Entre a morte e a vida


dema

29 de dezembro.
Tão sofrido, no leito de morte,
o 16 aguarda o inexorável desfecho.
Desvestiu política e políticos,
tornando fétido o ar que respiramos
_ que podres!
Pôs, em pratos limpos de fartura,
milhões desempregados,
herança de gestão destemperada.
Morre em camisa de força,
a mesma que veste o cidadão.
Difícil, nesse panorama, o vislumbre
de sucesso ao sucessor 17,
mas a quase morta esperança inda respira.
Que a justiça prevaleça, cega e ágil,
e escorrace a corja legislativa e executiva!
Que se pinte novamente de verde
a bandeira de todos os brasileiros!
Que a esperança se revigore em 17,
aliada a medidas concretas de melhoria.
Feliz “Ano novo!”


quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Autorretrato


dema

Por óbvio não sou o que pareço,
muito menos o que pretendera ser,
ainda assim, vejo sorte em ser o que de fato sou;
não, talvez, em parecer o que pareço.
Minha redoma fez-se forjada em aço carbonado,
vedada de tal sorte que, fora dela,
não se ouve interno choro e grito.
Infiro que me ocultam seus juízos,
mormente os que, herdaram a desdita de,
próximos, não partilharem do meu ego.
Com certeza renunciam parte de suas vontades
para que eu não os veja distantes
ou entregues à desídia.
Afinal, insisto no axioma:
“cada ser é, em si e por si mesmo, um mistério”.
Inapropriado o momento para o afetivo.
É vida concreta, palpitante,
quando o silêncio eloquente desnuda,
mesmo que de modo velado,
realidades solitárias.

http://www.demasilva.com/PINEDITOS/AUTORRETRATO.html

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Humanidade: civilização e barbárie


dema

Sob prisma particular de análise, a humanidade é autofágica. Contraditória em si mesma, comporta a tendência para o bem e para o mal. Realiza-se de forma cíclica, sobrepondo fases de auto-rebeldia e de calmaria.
Ao mesmo tempo em que aprimora conhecimentos e tecnologias, utiliza-os para autodestruição. Ser humano e humanidade são conceitos muito próximos, podendo o primeiro representar simultaneamente o individual e o coletivo, enquanto o segundo alcança a extensão da espécie humana em seu contexto histórico, dos primórdios ao futuro.
Egoísta por natureza, a humanidade recusa-se efemeridade e almeja eternidade. A ganância de poder, sob as mais variadas formas, se lhe faz presente, seja em âmbito pessoal, seja coletivo e sob plataformas diversas, política, econômica, social, religiosa. Tudo se presta a motivo para domínio do outro.
A redução ou inexistência de valores morais, éticos, leva à banalização da vida e de princípios, induzindo ao confronto com normas de conduta, quer naturais, quer civis (legais ou religiosas).
Ao que me parece, o século XXI exemplifica um momento crítico da história humana. A rebeldia exacerbada, mesmo fundamentalista, joga por terra o respeito aos direitos naturais e conduz à negativação da pessoa. Qualquer pretexto político, social ou religioso opera a justificar o confronto com a ordem vigente, interna ou internacional. Sofrem as minorias toda sorte de exploração e condenação, mormente em áreas desprovidas de ou com frágil poder político.
Costumo afirmar que o final do século XX e o início deste XXI presenciam uma involução generalizada da humanidade, quando atitudes de grupos humanos nos induzem ao entendimento de que ela renuncia à civilização em prol da barbárie.

O que esperar do comportamento coletivo predominante? Para onde caminha o homem? É de se desejar que o barbarismo passe rápido, substituído por um comportamento mais moderado, mais civilizado, nesse processo rotativo de idas e vindas.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Ao poeta contestador


dema

Eu era ainda menino,
me trajava de culotes,
já queria ser poeta,
me disseste: ­_ não tens dote,
falta-te estro genuíno
e a escrita é incorreta.

_ Ah, contestador Ferreira,
_ Acadêmico Gullar,
tua fala foi certeira,
fez-me apenas ensinar.

Onde quer que ora estejas,
pois de Deus eras descrente,
abre os olhos pra que vejas
esses versos de repente
feitos em tua homenagem,
pois a tua reprimenda
foi o que me deu coragem
pra tecer com maestria
meus poemas com poesia,
e, agora, por gratidão,
do fundo do coração,
te ofertar esta comenda.

_ “Briga com Deus e o Diabo,
se acaso os encontrares.
Não te faças de quiabo,
como quem se atemoriza,
cospe fogo ao contestares,
bate forte, polemiza!

EM DEMASILVA