segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Ao poeta contestador


dema

Eu era ainda menino,
me trajava de culotes,
já queria ser poeta,
me disseste: ­_ não tens dote,
falta-te estro genuíno
e a escrita é incorreta.

_ Ah, contestador Ferreira,
_ Acadêmico Gullar,
tua fala foi certeira,
fez-me apenas ensinar.

Onde quer que ora estejas,
pois de Deus eras descrente,
abre os olhos pra que vejas
esses versos de repente
feitos em tua homenagem,
pois a tua reprimenda
foi o que me deu coragem
pra tecer com maestria
meus poemas com poesia,
e, agora, por gratidão,
do fundo do coração,
te ofertar esta comenda.

_ “Briga com Deus e o Diabo,
se acaso os encontrares.
Não te faças de quiabo,
como quem se atemoriza,
cospe fogo ao contestares,
bate forte, polemiza!

EM DEMASILVA

sábado, 3 de dezembro de 2016

Tropeço de amigo


dema


Passo o tempo em teu encalço,
jogo o laço no compasso
de teu passo e, ao abraço,
te puxo com embaraço.

Me reparas com desdém,
como se fora eu alguém
que, nesta vida ou no além,
o teu meio não contém.

Abro um sorriso amarelo,
não fazendo elo com o belo,
como a porta de um castelo
ante a dama do cutelo.

Se me és pessoa errada,
a dizer, resta-me nada,
posto que tão desejada,
pra meu bem, já descartada.

Boa sorte é que eu te digo,
não te desejo castigo
nem serei, para contigo,
mais do que um velho amigo.

em demasilva

sábado, 26 de novembro de 2016

Quem sou


dema


Gosto de rolar pelas ladeiras,
saltitar as quedas das cascatas
e, tomando impulso em  corredeiras,
mergulhar taimbés de cataratas.

Sou o orvalho frio da manhã,
gota cristalina numa flor
plena de beleza, e talismã,
destinada ao teu sonhado amor.

Névoa a embaçar tua janela,
arco-íris para o colibri,
se desponta o sol em aquarela,
desperto a ternura que há em ti.

Sou começo, sou meio, porvir,
sou lago, sou  rio, sou  mar,
sou espelho dado a refletir
todo encanto da luz do luar.

Sou vapor da nuvem e sou neve,
descente avalanche da montanha,
até gelo em suco que tu bebes,
como no uísque que te assanha.

Teu lazer e teu entristecer,
sou lágrima que molha teu rosto,
se perdes o amor que julgas ter,
pranto intenso sou em teu desgosto.

Força que balança a caravela,
luz a dispensar maço de vela;
sou chuvisco, também tempestade,
se tsunami, ­ _ adeus, linda cidade!

Pérola escondida nos planetas,
procuram, os sábios, me encontrar,
mas, pareço certas borboletas
que não voam em qualquer lugar.

Sou parte de ti, sou tua vida,
sem mim, hás de morrer em seguida;
limpo-te por fora e por dentro,
lavo e carrego teu excremento.

Cruel te fazes com teu desleixo,
tiras o manto que me acoberta;
terás só deserto se te deixo,
é o que parece coisa mais certa.

Sem teus cuidados eu fugirei,
secretamente irei me safar.
Pra onde?­ _ Perguntas. Nem eu sei.
Talvez me transforme noutro mar.

em demasilva

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Night


dema


Sei que tu não acreditas,
mas a noite é minha vocação-desejo.
Aquele cheiro forte de perfumes misturados,
que detesto, me inebria.
O dark, os flashes, a música, tudo me excita.
Tu, princesa, vestida para festa...
Eu, até bonito.
Ah, as doses destiladas... as tuas, coloridas...
Como elas me alegram, me transformam...
Em cavalheiro? Sim, em cavalheiro.
Quando dançamos, sussurras coisas aos meus ouvidos
que me fazem estremecer. Então ouves que te amo.
Daí, mais um e outro...s tragos
e eu me entrego.
Mal sei se tango ou se bolero...
Certo é amanhã não ter manhã,
a cabeça um só latejo.
Passa logo se outra night eu antevejo.


segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Virtuais


dema


Sonho em sonhos
poder imaginar
os tons
do teu pensar,
contar as borboletas zigue – zague - antes
trombando imagens va – gue - antes
de teus ídolos;

amo vaticinar
o meu retrato nos teus devaneios.
Sei, no fundo, que apenas
ninas momentos de escape
borboletantes da razão,
a tua caixa de pandora
farta de desesperança,
estufada, então, de transeuntes cerebrais
despolvilhados de um mascavo afeto.

Quem me dera lamber,
se houvesse,
o doce dos teus devaneios!
Ah, talvez minh’alma visse
o ser acre em mim e doce em ti.

Inflama o ego vasculhar esse baú
_ muralha inexpugnável,
desejo inatingível _ e
perceber-me meta-posse em ti.


Alguns dizeres reunidos


de dema

“Melhor o chuvisco do que a simples tela preta.
A realidade no imaginário em busca do HD.
Platão que o diga!
Assim, a humanidade. Quem sabe?!”


Há gosto para tudo, inclusive para a dor.
“Como era gostoso sentir saudades do meu amor!”

A fé que se substantiva paliativo do medo e da insegurança humana denota tão só o oportunismo e a covardia da criatura frente à própria efemeridade.

A incredulidade é a própria crença do incrédulo. Intenta sustentá-la, mas com mera negativa. É como provar o nada com o niilismo. Seu descrer converte-se em sua divindade. Mais fácil me parece provar o divino com elementos positivos do que negar-lhe existência por simples negativa. A negativação concretiza-se ser positivado e locupleta espaço do ser completo. Noutro dizer, ser e não ser incorporam o mesmo universo, tão somente sob óticas diversas. O onipresente contém o sim e o não, o tudo e o nada, o anverso e o reverso, o repleto e o vazio. Assim, não há onde caber o nada, vez que o tudo não lhe deixa brecha, isto é, o nada se contém no tudo. Destarte, o não-Deus em Deus está contido. Negá-lo é conferir-lhe positividade.

Elucubração pos mortem
Meu desejo, hoje, é de, quando morrer, ser cremado. Que quem de direito faça das cinzas aquilo que melhor lhe aprouver. Pelo que me conheço, presumo que, na eventual hipótese de acordar enferetrado, não teria calma suficiente para aguardar a remorte. Enquanto não se implanta um sistema amigável de alarme em cemitérios, com interligação da central a cada terminal mortuário (túmulo ocupável), o crematório se me afigura a opção mais segura.

Se eu fosse dois, já teríamos nos destruído.

Não se prova afeição com filosofia, salvo sua ausência.

Secando a grana, seca a gana. Vou ter saudades de rir das baixarias do partido no poder. Que o Diabo o carregue!

Enquanto a matilha enfurecida e desesperada ladra, a carruagem azul passa e seus cavalos peidam de alegria.

Relembrando e misturando E. Regina e T. Jobim:
"É pau, é pedra, é o fim do caminho ... são as águas de março fechando o verão". Vão jateando e expurgando as ratazanas de esgoto de nossa Nação. "É um sopro de vida" pra comemoração.
Avante Brasil!

A luz do sol não adentra palácios,
também não brilha na periferia;
não clareia, outrossim, os cambalachos
que cegam olhos que não deveriam.
Abaixo a corruptocracia!


Se o magistrado julga a pretensão sob toga política, desveste-se do direito de exercer a própria competência. A parcialidade desvenda os olhos da Justiça, retira-lhe a razão de ser e a converte, no caso, em cupincha do poder. Abaixo o tribunalzinho pelego!

Trono defecado
Quem come quem nos bastidores,
na suruba político-partidária?
Vai saber!
No final, o povo chora dores retais,
de vez que os “surubentos” riem à custa dele.
No país do faz-de-conta,
mesmo à luz solar e de holofotes,
prevalece a escuridão, a incerteza.
Garantia única é a de que a maracutaia continua,
o engodo perpetua-se
e as classes menos favorecidas nele se embebedam,
inda que a tira-gosto de pão com porcaria.
Amanhã, talvez sem pão.
O petróleo baixa de preço,
o combustível sobe;
se chove pouco, bandeira vermelha;
se a chuva aumenta, bandeira vermelha.
Já não sei se é o salário que encurta ou é o mês que cresce.
Menos arroz, menos feijão, mais água na panela.
A dívida se avoluma, a poupança zera:
pra todo mundo é pão com mortadela.
Desfaça a mala, que o dólar dispara!
O osso está ruço, mas tusso, rosno e não largo;
posto que borrado o trono, quero o cargo.
Deus tenha misericórdia de nós, ante tamanha sanha!
Quanta ignorância!
Impossível tolerância.
Que país podre!!!

Em Brasília, o ar está irrespirável. Impregna-o um indescritível odor de podre e de carniça. Não se sabe, contudo, de qual dos dois lixões está a exalar mais forte, se do Planalto ou se do Congresso.

“À felicidade basta o singular. Se no plural, pode reduzir-se a momentos.”

The sunrise makes the hope emerge inside your heart and your mind.

Não sou mais que o silêncio vagabundo a dominar os meus dias sem poemas.

"Desespera-me a métrica, pois o poema me espera.
Quisera a leveza da escrita, pra que não se assemelhe a quimera."


Ideias brotam de repente e se sujeitam
a contestação, crítica, incremento, rejeição, aprovação.
Sem juízo de mérito.
Nada pessoal.
Vivas à liberdade de expressão!


sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Infernidade


dema


Andeiro pela vida, longe e perto, ouço
soluços quebrados de fracasso e sonhos.
Bem sei, te perdes entre choro e risos,
se não por paixão, perda de juízo.
Sorves do desprezo que esfacela o ser
e da mágoa pura, logo, te embebedas.
Finado amor, tu desabas súbito.

Em tu’alma cravas a existência torpe
e muda te fazes por desesperança.
Fúnebre apatia de sentida fleuma
exala das lágrimas de um torcido lenço.

Maldito sol, este de primavera,
que castiga as flores antes da procela,
com muito prazer, queima lembranças vagas
do expirado tempo de glamour e paz.

Ingrata noite _ Óh, que interminável! _
fustiga a insônia nos olhos doídos,
o roto lençol, marcando a pele flácida,
desprotege o corpo, quase carcomido.
Os segundos-horas, os minutos-meses,
uma hora-ano, uma eternidade,
_ incomensurável, essa “infernidade”!.

Imploras ao raio vir romper a aurora,
precisas cuspir o fel da boca amarga,
onde, doravante, não faz moradia
o saudoso beijo da figura amada;

Vida oca e louca, sem som de piano
sem trombeta de anjo, sequer um poema,
vida nebulosa, vida em desengano,
a alma minguada, menos que pequena.



EM DEMASILVA