segunda-feira, 4 de junho de 2018

A noite



dema


Desde pequenino, chamo a noite de irmã.
Ouve meus lamentos, suaviza minh’alma,
torna-me pronto para, em cada manhã,
peitar obstáculos sem perder a calma.

Se me maravilha o cintilar das estrelas,
cismo a perfeição da estrutura do universo.
Lembrar da morte traz o temor de perde-las
e se presta a romper co’a feitura do verso.

É ela quem incita a buscar aventura,
quem conduz para a festa ou, quiçá, ao prazer,
para bem longe expulsa qualquer amargura
e me dá o condão de poder esquecer.

Sabe dos meus segredos e os guarda seguros,
inda conta muitos dos vários que detém;
na verdade, confesso, para ela eu juro
jamais revelar algum deles para alguém.

Em seu coche me vejo a correr por galáxias,
tão veloz que atropelo os lerdos cometas;
vou longe, muito longe desta Via Láctea,
tocar, com os arcanjos, as suas trombetas.

Matuto, penso, repenso, acho interessante
como ela sempre responde os quesitos meus;
quanto mais eu me ponho do mundo distante,
mui mais perto me vejo do encontro dom Deus.

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sexta-feira, 25 de maio de 2018

Tua face


dema


Já me cansa ver a lua aparvalhada
co’a beleza que de tua face emana,
todas as estrelas sentem-se humilhadas
na abóboda celeste que as irmana.
Odeiam-te como a bruxa odeia Aurora.
Não és Rapunzel, não és Branca de Neve,
nem eu um dos sete anões que a ela servem.
Na ciranda, construímos nossa história.
Do meu peito faço tua carruagem,
minha alma a espelhar o teu retrato.
Se nela, então, reconheces tua imagem,
corre logo pra selarmos nosso pacto!

De mãos dadas, passeemos no jardim.
Deixarei com haste lisa tua rosa,
Ficarão os seus espinhos para mim.
Ah, se eu tivesse a lábia de Casanova,
para, ao dormires, cantar-te teus encantos
e tu, quem sabe, ao depois, pela manhã,
secasses cada lágrima de meu pranto.
Onde a coragem do bravo D’Artagnan
pra conquistar um reino e dar-te a coroa,
pois que, antes e agora, nobre Senhora,
tens-me apenas por reles plebeu à toa.
Toma meu coração, faz dele troféu!
Em troca, beija estes meus sedentos lábios,
que, ávidos e melosos, mais que sábios,
poderão, certamente, levar-te ao céu.


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quinta-feira, 19 de abril de 2018

Por onde vaga?



dema


Por onde vaga o costumeiro olhar poético,
se, já faz tempo, não vislumbro a poesia?
Pousa em minh’alma um pesar quase patético,
assinalado por ódio e melancolia.

Não se condói, o coração petrificado,    
de quem implora por um pouco de afeto;
tampouco aplaude ao construtor juramentado
de um mundo novo em que o amor é predileto.

Surgem mazelas temporais e me incomodam,
travam o fluxo do pensar alvissareiro;
se me submeto, sou fantoche que me moldam,
então, combato-as fosse eu nobre cavaleiro.

Busco fugir desse torpor que fere a alma,
pra deslumbrar-me com o azul do horizonte,
brindar à vida porque dádiva e, com calma,
tecer poemas em que a beleza desponte.

Tomara logo de mim se aproprie o estro,
não seja eu, da poesia, um fratricida,
quero jorrar-me em versos qual um bom maestro
regendo a orquestra a uma plateia embevecida.

Ah, se viesse em meu auxílio a bela Érato
e acendesse na minha alma inspiração,
eu mandaria esse torpor arder no báratro,
para a alegria retomar meu coração.

http://www.demasilva.com.br/PINEDITOS/POR_ONDE_VAGA.html


sexta-feira, 6 de abril de 2018

Realidade material e espiritual



(dema)

O ser, sob ótica ontológica, embora realidade incontestável, põe-se incógnita desafiadora à inteligência humana.
De onde veio? Como se manifesta organizadamente no micro e no macrocosmo? Questões que aniquilam a razão humana ante incapacidade desta de desvendá-las.
De onde a energia primeira? Do nada? De um deus? E este deus? Do nada? Do sempre?
Se a matéria em si parece aberração inexplicável, quanto mais as manifestações (imateriais) de espiritualidade.
Como simplesmente conformar-se, o homem, fruto efêmero desta mesma realidade mutante?
Por mais que se raciocine, a existência continua um monstro indesvendável.
Talvez por isso seja mais cômodo criar teorias de fé. Mais fácil conviver com o mistério, pelacrença, do que enfrentá-lo com a razão.

sábado, 31 de março de 2018

Relance



dema

Das brumas do tempo te vejo surgir.
Vens como princesa vestida de mimos.
Altiva, me olhas tentando fingir,
porém, te aproximas e logo me inclino.

Não mais que um afago se põe meu desejo,
como um cão fiel recebendo seu dono.
Palpita-me o peito, ao baixar-te pro beijo
na face enrugada por longo abandono.

Que Afrodite esta que vislumbro e me toca,
me beija e despede sem sentir a minh’alma?
Por que vens deslumbrante, se assim me provocas,
e, em seguida,  regressas, tirando-me a calma?

Por menos que o fora, a tua presença,
a mim sobreveio relance de paz.
Lembrança do amor que ao depois, por ausência,
me fez prisioneiro em alguma alcatraz.

Vai, que teu mundo escolhido te espera,
e trancafiado traz teu coração.
Já que o preferiste, enfrenta a quimera
que aos poucos te mata, a solidão.

http://www.demasilva.com.br/PINEDITOS/RELANCE.html

segunda-feira, 19 de março de 2018

Deletéreo




dema

Hora lerda
Dorso cansado
Dor à espreita
Anseio-calmar
Odor-de-merda
Desejo inflado
Sorte estreita
Por que esperar(?)

Tempo urge
Ora é depois
Desce a manhã
Já quase noite
E a morte ruge
A um, a dois
Vil talismã
De fado-açoite

Desfeito o céu
Ante universo
Onde pairar
Minh’alma-grito(?)
Inferno ao léu
Verso e reverso
(In)finito penar
Carne-espírito


domingo, 11 de março de 2018

Reflexão


Deus: causa ou consequência do meu pensar.
Se existe, esteve sempre comigo, pois, nele, repousa constantemente meu pensamento;
se não, é como se existisse, pois crer nele preenche o vazio que decorre da dependência da criatura em relação ao incriado.