sexta-feira, 7 de março de 2014

Flagrante...

(dema)


Esbaforido e feliz, ele chega em casa. Salta rapidamente do carro, que nem tranca, e voa para dentro. Não fora à viagem programada. Pensando ir logo dar a notícia à mulher e abraçá-la, corre para o quarto. Empurra a porta apenas escorada e vê que dois corpos se enroscam sob o virol. Instintivamente o puxa e deixa a descoberto um homem nu “bombando” entre duas pernas dobradas e entreabertas.
─ Êpa, meu Deus!
─ Ah, Zé ─ volta-se o macho ─ sei que você não se importa mesmo com sua mulher!
O sangue sobe-lhe às ventas e, à força, Zé arranca aquele intruso de sua imaginada exclusividade.
O “amigo” escapa e corre pelado em direção à rua.
Há uma mureta de aproximadamente um metro de altura em frente à calçada. Zé o persegue e quando o fugitivo vai saltá-la, tenta segurar-lhe os pés. O homem bate com a têmpora no meio-fio e um jato avermelhado, borbulhante, forma rapidamente a poça que lhe encharca os cabelos. Ali, nu, de bruços, resta imobilizado.
Zé volta ao quarto. Agora, em desespero, a esposa clama por perdão.
Com brutalidade, toma-a pela barriga, arranca-a da cama e, por trás, dobrando-lhe a cabeça até os joelhos, procura, repetidamente, esmagar-lhe o crânio no chão.
Súbito, outra ideia. Larga-a. Dirige-se ao criado de cabeceira, pega o trinta e oito, carregando-o com sete cartuchos.
─ Vou é lhe matar, sua puta!
Enquanto isso, ela escapa. Chega à porta da rua e embrenha-se por um terreno baldio com mato baixo, que se abre à frente.
Pá, pá, pá. E ela cai. Um tiro acertara-lhe a coxa. Levanta-se, arrastando a perna direita, volta o pescoço com os olhos esbugalhados e torna a correr, agora mancando, para escapar da morte.
Pá, pá, pá. E ela cai novamente.
Zé chega. Sobra-lhe uma bala. Encosta a arma na cabeça da esposa. Ela não se mexe, sequer um balbucio de perdão. Ofegante, aguarda o tiro fatal.
─ Deveria matá-la, sua puta sem vergonha, mas se o fizer, você não vai sofrer nada!
Com o terror estampado na face, a rameira vê o Zé cheirar o cano do revolver e, em seguida, enfiá-lo na própria boca: pá. E o baque surdo do corpo caindo ao chão.
Ao redor, um menino de doze anos e duas meninas mais novas, todos com a mochila da escola às costas, presenciam o trágico desfecho:
─ Mãe, o que aconteceu?

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